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Family stories:FRANCISCO DE BORJA GARÇÃO STOCKLER
Posted by: WELFARE JOELE PINTO on July 27 2017 16:51

FRANCISCO DE BORJA GARÇÃO STOCKLER (Lisboa, 25 de Setembro de 1759Faro, 6 de Março de 1829) foi um nobre, militar e administrador colonial português. Primeiro e único barão da Vila da Praia, alcançou o posto de tenente-general do Exército Português, 8.º capitão-general dos Açores, político e matemático. Foi um dos pioneiros do cálculo diferencial e um dos mais notáveis historiadores da Matemática em Portugal, autor de uma obra que ainda mantém relevância quase dois séculos após a sua publicação. Demonstrando grande erudição, também se dedicou à poesia e à literatura.

Índice

Biografia

Francisco de Borja Garção Stockler era filho de Cristiano Stockler, grande comerciante, natural de Lisboa, cavaleiro da Ordem de Cristo, e de sua mulher, D. Margarida Joséfa Rita de Orgiens Garção de Carvalho. Era neto paterno de Christian Stockler, natural de Hamburgo, homem de negócios estabelecido em Lisboa nos princípios do século XVIII onde representava os interesses de comerciantes das antigas cidades hanseáticas.

Garção Stockler casou, a 3 de Janeiro de 1796, com D. Inês Gertrudes de Mendonça e Moura, filha de D. João Francisco de Moura, cavaleiro da Ordem de Cristo e escrivão da Mesa Grande da Alfândega de Lisboa, e de sua mulher, D. Ana Catarina da Silva e Távora, de quem teve vários filhos. Tendo esta falecido em 1835, casou com D. Maria Margarida Stockler, sua sobrinha, filha de António Xavier Stockler, e de sua mulher D. Rita Inácia de Brito Lambert, não deixando descendentes desse casamento.

Ao longo da sua carreira Garção Stockler, apesar das inimizades e do período conturbado em que viveu, coincidente com as invasões francesas e com o dealbar do liberalismo, granjeou um impressionante acervo de títulos e cargos: fidalgo cavaleiro da Casa Real; do conselho de el-rei D. João VI, comendador da Ordem de Cristo, tenente general do exército, secretário e conselheiro do Conselho Ultramarino, governador do Algarve, governador e capitão general dos Açores; Secretário das Imediatas Resoluções do Rei relativas ao Exército; membro da Junta do Código Criminal Militar e da Junta convocada para a formação do projecto da Carta Constitucional em 1823; lente de matemática na Academia Real de Marinha; deputado da Junta de Direcção da Academia Militar do Rio de Janeiro, secretário da Academia Real das Ciências de Lisboa e sócio da Sociedade Real de Londres, para além de outras honras e cargos.

Por decreto de 29 de Setembro de 1823, de D. João VI, rei de Portugal, Francisco de Borja Garção Stockler foi feito barão da Vila da Praia em reconhecimento do seu desempenho enquanto governador e capitão-general dos Açores. O título foi concedido por uma vida, tendo sido seu único titular.

O tenente-general Francisco de Borja Garção Stockler, 1.º barão da Vila da Praia, faleceu no Algarve. Aquando da sua morte Stockler exercia o cargo de Governador das Armas do Algarve, nomeado por D. Miguel I.

Carreira académica

Destinado à carreira das armas, Garção Stockler cedo ingressou no Exército, seguindo o normal percurso da oficialidade da época. Em 1784, já com 25 anos e com a patente de capitão, matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde cursou Matemática. Obtido o grau de bacharel, foi nomeado lente da Academia Real de Marinha, iniciando aí um distinto percurso de investigação na área dos limites e do cálculo diferencial, então uma nascente área do conhecimento.

Pouco depois da sua nomeação para lente de Matemática na Academia Real de Marinha, Garção Stockler foi eleito membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, iniciando um intenso labor académico do qual resultaram numerosas publicações insertas, a partir de 1791, nas Memórias da Academia. Essas publicações lidavam essencialmente com a teoria dos limites e com as temáticas que hoje vulgarmente se designam por cálculo diferencial, mostrando que estava a par dos mais recentes trabalhos que nesta matéria então se publicavam na Europa.

A sua actividade académica granjeou-lhe notoriedade suficiente para ser nomeado para o cargo de secretário da Academia, cabendo-lhe a elaboração do elogio de diversas personalidades do meio académico e político, entre as quais Pascoal José de Melo Freire dos Reis, José Joaquim Soares de Barros e Vasconcelos, Roberto Nunes da Costa, Martinho de Melo e Castro, Bento Sanches de Orta e Guilherme Luís António de Valleré. Alguns destes elogios históricos foram posteriormente publicados pela Academia e outros pelo autor, nas suas Obras Completas, das quais saíram os volumes I e II (em 1805 e 1826, respectivamente).

Também escreveu o elogio d’Alembert, inspirado no que havia sido escrito pelo marquês de Condorcet, demonstrando bem conhecer os trabalhos dos pensadores franceses coevos.

Numa honra raramente concedida a cientistas portugueses, Garção Stockler foi eleito a 1 de Abril de 1819 para membro correspondente ("Foreign Member") da Royal Society de Londres, numa proposta subscrita, entre outros, por John Rowley e S. R. Chapman.

A Guerra das Laranjas e as invasões francesas

Garção Stockler participou, sob o comando do marechal general D. João Carlos de Bragança Sousa e Ligne, 2.º duque de Lafões, nas campanhas de 1801 contra as forças invasoras do Príncipe da Paz, a famigerada Guerra das Laranjas. Stockler foi secretário militar do duque, de 1797 a 1801, e parece ter tido um papel importante na condução das operações, ficando o seu nome ligado ao estrondoso fracasso das forças portuguesas. Apesar disso, ou talvez por causa disso, foi nomeado para diversos cargos de importância, entre os quais para vogal do Conselho Ultramarino e membro da Junta do Código Criminal Militar.

Mais tarde, na sua obra Cartas ao autor da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, publicada em 1816, tentou explicar as suas acções durante as invasões francesas e apresenta pormenorizadamente as propostas do marechal general e a sua interpretação dos factos que levaram à derrota portuguesa.

Quando em 1807 as forças francesas comandadas pelo general Junot entram em Portugal e a corte se retira para o Brasil, Stockler ainda exercia as funções de secretário da Real Academia das Ciências, sendo um dos dignitários que, em nome da Regência do Reino, se dirigiram a Sacavém para saudar o general invasor. Esta atitude, e ainda o facto da Academia haver de imediato eleito Junot para sócio, emitindo um diploma que, acompanhado por um discurso laudatório, foi entregue a Junot por Stockler, enquanto secretário da mesma, granjearam-lhe fama de colaboracionista, ao mesmo tempo que o colocavam na confiança dos franceses.

Aceitando de Junot o comando da bateria da Areia, próximo a Belém, que entrou em acção para impedir a saída de navios portugueses que pretendiam refugiar-se no Brasil, Stockler deu provas de verdadeiro colaboracionista, o que levou a que, após a retirada francesa, a Regência lhe retirasse todos os cargos e privilégios.

Na sequência de um requerimento em que Stockler, que já então era brigadeiro, pedia a reintegração, o conde de Linhares, Ministro do Príncipe Regente no Brasil, enviou ao presidente da Regência do Reino um ofício que bem demonstra a desconsideração em que havia caído: — Ex.mo e Rev.mo Sr.Tendo levado à augusta presença de Sua Alteza Real o príncipe regente nosso senhor a carta inclusa e mais papéis do brigadeiro Francisco de Borja Garção Stockler, cujos talentos militares verificados na campanha de 1801, são assaz constantes ao mesmo senhor, em cuja real presença é além disto mui pouco acreditado pela missão em que foi mandado a Junot, e depois pelo comando da bateria da Areia junto à Torre de Belém, donde barbaramente fez atirar sobre navios portugueses, que se faziam à vela para saírem do Tejo; contudo Sua Alteza Real ouvindo os sentimentos da sua incomparável justiça e piedade, é servido que os governadores do reino informem, interpondo o seu parecer e depois de ouvir o marechal general ou o marechal general do exército se haverá algum lugar activo em face do inimigo, onde o suplicante possa ser empregado, e neste caso o proponham para esse posto, a fim de que se verifique se ele tem realmente grandes talentos militares, ou se nesta matéria como nas outras se avalia muito além do que vale; o que é assaz conhecido quando, como matemático, quis associar-se ao tão justamente célebre Lagrange. — Palácio de Santa Cruz, em 25 de Novembro de 1809.Conde de Linhares.

A acusação de colaboracionismo com as forças francesas, e de incompetência militar na campanha da Guerra das Laranjas, surgiu publicada na História Geral da Invasão dos Franceses, de José Acúrsio das Neves, desencadeando uma longa polémica pública, tendo Stockler respondido numa obra intitulada Cartas ao autor da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, que a Academia se recusou a publicar, mas que foram publicadas pelo autor. A polémica não se esgotou com esta publicação, prosseguindo pela via epistolar, tendo Stockler publicado as cartas no Investigador Portuguez.

Contudo, apesar dos ódios e incompreensões, conseguiu a reintegração e a promoção a marechal-de-campo, recomeçando, contra todas as probabilidades a sua carreira.

A estadia na corte do Rio de Janeiro

Em 1812 parte para o Brasil, ingressando na corte e reconquistando, com notável rapidez, ao que se diz pelas suas qualidade intelectuais, a confiança do Governo e do príncipe regente.

Garção Stockler ainda residia no Rio de Janeiro aquando, por morte da rainha D. Maria I, o príncipe regente D. João foi aclamado rei com o título de D. João VI. Coube-lhe então, em nome da Academia Real das Ciências de Lisboa, produzir um Discurso dirigido em nome da Academia Real das Ciências a Sua Majestade o Senhor D. João VI, por ocasião da sua exaltação ao trono, que foi publicado no tomo VI, parte I, das Memórias da Academia.

Para além do seu labor académico enquanto matemático, Garção Stockler também se interessou pela poesia, escreveu uma obra poética, a que chamou Poesias Lyricas, constando de odes horacianas, salmos traduzidos e de um poema filosófico, Aves, que fora principiado pelo poeta brasileiro Sousa Caldas. Numa clara manifestação de erudição, Stockler incluiu no volume uma dissertação sobre o ritmo na poesia hebraica.

Submetida à Academia, a obra foi considerada, por parecer emitido em 1819, como violando a ortodoxia católica, ventilando ideias consideradas paradoxais. Stockler não aceitou modificar a obra, recorrendo à sua publicação em Londres. Em resultado, a obra foi efectivamente condenada, mais tarde, em Roma, por decreto da Sagrada Congregação do Index, de 23 de Junho de 1836, e incluída no Index Librorum Prohibitorum.

Data também deste período a elaboração da obra Ensaio histórico sobre a origem e progressos das matemáticas em Portugal, posteriormente publicada em Paris, que despertou logo crítica favorável pelos estudiosos coevos, como José Silvestre Ribeirão na Resenha de Litteratura Portugueza, tomo I, páginas 16 e seguintes, e o artigo inserto nos Annaes das Sciencias, das Artes e das Letras, no tomo V, páginas 138 a 156. Esta obra, que já foi objecto de reedição, mantém-se como uma das melhores histórias do pensamento matemático português até aos alvores do século XIX, e uma das primeiras obras do género publicadas na Europa.

Também durante esta estadia no Brasil, interessou-se por temas de educação, sendo autor de um estudo sobre o estabelecimento da instrução pública no Brasil, um projecto pioneiro naquele país e onde é patente a erudição e o conhecimento que Stockler tinha do pensamento europeu coevo. Aquele projecto ainda mantém interesse na história da educação e da pedagogia.

Outra das funções que exerceu foi a de deputado da Junta de Direcção da Academia Militar do Rio de Janeiro, onde, em conjunto com Wilhelm Ludwig Freiherr von Eschwege, o barão de Eschwege, teve papel importante na estruturação do ensino nas áreas da matemática e da física. Esta escola militar, criada por carta régia de 4 de Dezembro de 1810 iniciou as suas actividades a 23 de Abril de 1811. É uma das instituições antecessoras da actual escola superior do Exército brasileiro, a Academia Militar das Agulhas Negras, e foi a primeira escola de engenharia no Brasil.

Stockler nas funções de Capitão-General dos Açores

Durante a sua estadia no Rio de Janeiro surgiram profusas queixas na corte ali instalada sobre a actuação do brigadeiro Francisco António de Araújo e Azevedo nas funções de Governador e Capitão-General dos Açores. As populações e as autoridades insulares queixavam-se do seu rigor nos recrutamentos militares e particularmente da sua acção no arroteamento de baldios públicos, que eram concedidos, acusavam as câmaras das ilhas, a particulares, em geral amigos do Capitão General, em detrimento do interesse dos povos. Essa apropriação dos baldios deu origem a profundos ódios e desavenças e, mais tarde, conduziu aos motins da Justiça da Noite que, durante décadas, abalaram a pacatez insular.

Estando na corte, e tendo ganhado notoriedade pela sua produção académica e inteligência, Garção Stockler conseguiu ser nomeado por D. João VI, em 12 de Novembro de 1819, para ir substituir o capitão-general caído em desgraça. Stockler partiu para Lisboa em Agosto seguinte com o fito de receber da Regência as ordens necessárias à governação dos Açores.

Por esta mesma altura desencadeia-se em Portugal o movimento constitucional. É assim em plena fase inicial da Revolução de 1820 que Stockler chega a Lisboa. Embora sendo claramente antiliberal, aparentemente a fama de jacobino e de colaboracionismo com os franceses foi-lhe aqui útil. A Junta revolucionária que governava o país recebe-o e reconfirma-o no cargo, permitindo a sua partida para os Açores.

A sua chegada aos Açores, a 18 de Outubro de 1820, foi saudada com efusiva alegria, pois significava o fim da tirania do brigadeiro Francisco António de Araújo e Azevedo. Ambos os partidos depositavam esperanças na sua actuação: os liberais, acreditando que a reconfirmação dada pela Junta Suprema era um sinal de ideias pró-constitucionais; os absolutistas convictos que a sua nomeação por D. João VI antes da revolução era uma garantia da sua adesão ao rei absoluto.

Tiveram razão os absolutistas, já que Stockler proibiu os contactos políticos com Portugal e obrigou todo o expediente administrativo e judicial açoriano a ser enviado para a corte do Rio de Janeiro, não reconhecendo a legitimidade e autoridade das instituições de Lisboa.

Quando se aperceberam da orientação do novo capitão-general, os liberais açorianos iniciaram movimentações no sentido de proclamarem, pela via revolucionária, o constitucionalismo no arquipélago. Foi assim que, capitalizando o descontentamento com a governação dos capitães-generais, com sede na Terceira, ilha que diziam dominava todas as outras e absorvia o grosso dos recursos fiscais, a 1 de Março de 1821, uma revolta militar em Ponta Delgada, inspirada por elementos civis que pretendiam a libertação da ilha de São Miguel àquilo que entendiam como o jugo da Terceira, instala o regime constitucional na ilha de São Miguel e proclama a independência daquela ilha do Governo de Angra.

Stockler ainda tenta resistir, mas logo a 2 de Abril de 1821 uma revolução constitucional em Angra, inspirada pelos deportados da Amazona e pelos seus conversos, reinstala no poder o brigadeiro Francisco António de Araújo e obriga Stockler a refugiar-se na Praia. Contudo, dois dias depois, a 4 de Abril, num contra-golpe militar ocorrido no Castelo de São João Baptista do Monte Brasil, o brigadeiro Araújo é morto e Stockler retoma o poder.

É neste contexto que Almeida Garrett, que pouco antes fundara em Coimbra a loja maçónica e secreta Sociedade dos Jardineiros, se desloca entre Maio e Agosto de 1821 à Terceira, talvez como emissário da Maçonaria, para tentar firmar a nova legalidade constitucional na ilha, no que encontra forte oposição de Stockler, que ameaça prendê-lo caso ele se manifestasse publicamente a favor da Constituição. Deste episódio resultou o poema herói-cómico O X, ou a incógnita, que Garrett escreve, sem concluir, alusivo ao capitão-general (aparecido em edição póstuma em 1985).

Contudo, a 13 de Maio de 1821 chegou à Terceira a fragata Pérola, comandada pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra Marçal Pedro de Ataíde Barahona, e este intimou Stockler para que reconhecesse o governo liberal. Stockler insurgiu-se contra a intimação e resistiu, mas não encontrou o apoio que esperava na população, pelo que a 15 de Maio de 1821, em cerimónia solene realizada na Câmara de Angra, são juradas em Angra as bases da futura Constituição. Stockler abdica do cargo de Governador e Capitão General mas fica, em conjunto com o bispo da diocese, D. frei Manuel Nicolau de Almeida, adido ao governo.

Esta solução não foi aceite pelas Cortes e a 19 de Julho de 1822, pelo brigue Flor do Mar, chega ordem régia para Stockler e o bispo saírem da ilha Terceira, o que estes cumprem a 11 de Agosto de 1822.

À chegada a Lisboa Stockler é colocado sob prisão por ordem das Cortes, desencadeando um processo que em boa parte decorreu através da publicação de sucessivas justificações e refutamentos e de longos debates pela imprensa, escrevendo Stockler um Memorial dirigido ao Ill.mo sr. Luiz Manuel de Moura Cabral, desembargador da Casa da Supplicação, illustrado com algumas notas, além de muitas obras que assinava com pseudónimos ou a que punha o nome do filho, António Nicolau de Moura Stockler, que então contava apenas 17 anos de idade.

Essas obras são as Cartas sobre os acontecimentos da ilha Terceira, por um Cidadão imparcial, a Nota ao n.º 75 do Campeão Lisbonense por um Amigo do general, as Observações ou notas illustrativas do folheto intitulado «Voz da Verdade provada por documentos», a Carta sobre o n.º 2 do folheto intitulado a «Voz da Verdade» e a Analyse critica ao libello famoso intitulado «Noticia resumida dos acontecimentos da ilha Terceira na installação do seu governo constitucional», tudo isto com o nome de seu filho.

Finalmente o próprio, general respondeu com o seu nome num folheto a umas Notas Críticas, publicadas em 1822 pelo Dr. Vicente José Ferreira Cardoso da Costa, a um ofício que ele dirigira ao conde dos Arcos.

Todas estas questões, e o processo judicial a elas associado, terminaram com a queda do governo constitucional em 1823, em resultado da Vilafrancada, ficando o comportamento de Stockler ilibado à face da lei, pois se tornava em acção meritória o que até então lhe imputavam como delito. Por sentença de 10 de Junho de 1823, foi a conduta de Stockler julgada benemérita, legal e recomendável, ficando totalmente reabilitado. O mesmo aconteceu com o bispo.

Sendo um dos presos políticos libertados, Stockler granjeou grande renome, pelo que de imediato foi nomeado para a comissão encarregue de elaborar uma Carta de Lei que preenchesse o vazio deixado pela revogada Constituição. Extinta esta comissão, sem qualquer lei produzida, Stockler foi de novo nomeado governador e capitão-general dos Açores, sendo também agraciado com o título de barão da Vila da Praia, por decreto de 29 de Setembro de 1823.

A bordo da charrua Princesa de Portugal, Stockler chega a 17 de Novembro de 1823 a Angra, reassumindo dois dias depois as suas funções. A recepção foi apoteótica, com três dias de festejos e um sem cessar de homenagens e juras de fidelidade. Seguiu-se de imediato a perseguição aos liberais e seus simpatizantes, com numerosas prisões e expulsões da ilha, criando-se um reino de terror que só tivera paralelo aquando da invasão castelhana de 1583.

Decorria este período de repressão quando a 14 de Maio de

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Announcements:QUARTETO SENTINELA - BAR BRAHMA CENTRO SP - 12 DE JULHO 2017
Posted by: Francisco Corrêa Serio on June 27 2017 00:15

12 DE JULHO DE 2017

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Kids:Que saudades do meu tempo de criança...
Posted by: Enio Carvalho Dias on Apr 21 2013 12:50

Hoje em dia o sonho de qualquer adolescente é chegar aos 18 anos, a idade da maioridade aonde começa a ser adulto, quando é permitido tomar bebidas alcolicas e mesmo tirar a sua carteira de motorista. A partir dai, termina a tutela dos pais, que não são mais legalmente responsáveis por aquele cidadão adulto que pode votar, casar e constituir a sua própria familia, ter seu próprio emprego, carro, abrir sua conta bancária e tirar seu passaporte podendo viajar para qualquer lugar do mundo, desacompanhado sem aquele titulo de "menor".

Enquanto nossos jovens sonham com estes dias que estão porvir, nós que somos mais antigos, que já passamos por todas estas fases e estamos entrando na terceira idade que no final nos conduz a nossa segunda infancia lembramos com saudades e nostalgia daquele tempo no qual tinhamos 10 anos. Como tudo era simples, o radio nos mantinham informado de tudo...

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Family memories:Casamentos na cidade de Aparecida do Norte, SP
Posted by: Enio Carvalho Dias on May 20 2012 17:14

Nas pesquisas e elaboração de nossa árvore genealógica, salientou-se o grande números de parentes que escolheram a cidade de Aparecida do Norte, no Estado de São Paulo, principalmente antes de 1950, como o local de realização do casamento e também como local de reunião na celebração das bodas de pratas ou de ouro. Ao lado, a foto dos meus pais por ocasião do casamento no dia 3 de Maio de 1939, saindo da igreja.

È interessante citar, que os casamentos que foram realizados em Aparecida do Norte raramente terminaram em divorcios e como no caso de meus pais, o mesmo durou por mais de 60 anos somente terminando com a morte do casal.

A tradicional foto na entrada da basilica velha, de toda a familia na celebração dos 60 anos de casados dos meus avós, em 1958, mostrando todos os membros da familia, com os meus avós no centro da foto.

Se os seus pa...

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Family stories:Alegria na roça...
Posted by: Enio Carvalho Dias on Nov 17 2011 16:07

Alegria na roça, é quando...

Meu pai tinha um ditado que dizia: “Alegria na roça é o dia que se mata um porco”! Realmente, na roça é sinal de fartura, pelo menos por quatro meses, quando se abate um bom capado, pesando acima de dez arrobas e que produza, pelo menos, de quatro a cinco latas de vinte quilos de banha.

Dada às dificuldades e à falta de conforto da época, nos acostumávamos e valorizávamos muito aquilo que dispúnhamos, e, diga-se a verdade - éramos felizes. Teve época que engordávamos porco à meia, ou seja, quando do abate dividia-se o animal com o sócio que o cedeu. Esta troca de favores era muito comum entre vizinhos, principalmente quando acabava a banha, carne e lingüiça, do abate anterior, e não se dispunham de um animal pronto para engordar, aí é que entrava o vizinho sócio.

Todos os dias, assim que voltava do colégio, uma das minhas tarefas era dar trato ao capado. Além de lavagem - restos de comidas - e milho do nosso paiol, dependendo da época do ano, também tratávamos com mandioca passada do ponto de consumo, abóbora e nabissa, cultivadas na roça de milho recém colhida.

Uma semana antes do abate, começavam os preparativos: providenciar as tripas para encher lingüiça, soda cáustica para fazer o sabão no tacho, afiar as facas, descascar o alho usado no tempero e limpar o varal em cima do fogão de lenha, onde a lingüiça era defumada por meses, devido ao fato de não termos geladeira.

Meu velho acordava bem cedo e apanhava seu punhal afiado - usado uma ou no máximo duas vezes por ano - e rapidamente trazia o suíno, já morto, em uma carriola para ser limpo e destrinchado. Enquanto isso, um tacho era colocado no terreiro para ferver a água que seria usada na lida.

Antes do almoço, tínhamos como costume, levar uma boa porção de carne para todos os vizinhos. Este gesto de boa vizinhança foi nos passado de pais para filhos. No tacho, junto com a banha derretida, fritavam-se as carnes para serem posteriormente acondicionadas nas latas da própria banha e guardadas em nossa dispensa. Carne esta que durava até o próximo abate.
A tarefa mais árdua do dia ficava por conta da fabricação da lingüiça. Tudo feito manualmente, portanto, muito demorado. Talvez venha daí a expressão “encher lingüiça” quando nos referimos a algo que demora a ser feito, ou quando temos que “matar o tempo”. Com um espinho de laranjeira eu ia furando o produto já pronto para a retirada das bolhas de ar formadas no ato do enchimento.
O sabor da pururuca crocante boiando no tacho com a banha escaldante era indescritível. Da lingüiça defumada - temperada com alho e pimenta do reino – nem se fala! A saborosa carne retirada da lata de banha e frita na hora, na própria banha, são inesquecíveis. Não posso esquecer-me do delicioso chouriço feito com sangue.

Bons tempos onde a nossa referência era a simplicidade! Com três ou quatro mudas de roupas, um par de botinas para trabalhar na roça e um par de sapatos surrados para ir à cidade, estava feito nosso guarda roupa.

O paiol era lotado de milho e o quintal cheio de galinhas. Na tulha, feijão, arroz, réstias de cebola e alho para o ano inteiro. Na horta, toda espécie de verdura, e no pomar, onde as aves cantavam, muita fruta o ano inteiro. No chiqueiro, um capado engordando e por fim uma “sonata” ou vitrola, para ouvir “as modas” sertanejas nos finais de semana. Com este “kit capiau”, estava completa nossa alegria de viver. Simples assim!

E viva a fartura da roça!

Relato acima enviado pelo amigo Renato de Piracicaba.

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Family memories:Inconfidencia Mineira - Quebra de fidelidade e traição cometida contra o Rei
Posted by: Enio Carvalho Dias on Nov 6 2011 23:27

Leitura da sentença contra Tiradentes.
(óleo de Eduardo Sá)
Memória
da Justiça Brasileira

A Inconfidencia
e Seus Juízes

"Lesa-majestade quer dizer traição cometida contra a pessoa do Rei, ou seu Real Estado, que é tão grave e abominável crime, e que os antigos Sabedores tanto estranharão, que o comparavam com a lepra; porque assim como esta enfermidade enche todo o corpo, sem nunca mais se poder curar, e empece ainda aos descendentes de quem a tem, e aos que com ele conversam, polo que é apartado da communicação da gente: assim o erro da traição condena o que a comete, e empece e infama os que de sua linha descendem, posto que não tenham culpa".

Assim definido nas Ordenações Filipinas, o crime de lesa- majestade abrangia uma ampla gama de situações, classificadas em "capitulos da primeira e da segunda cabeça". Entre os da primeira cabeça contavam-se a traição, a insurreição, a autoria ou cumplicidade em atentados contra o rei, contra sua família ou contra qualquer pessoa que estivesse em sua companhia ou, mesmo, a destruição de imagens do soberano, armas ou simbolos representativos do reino ou da casa real. Qualquer desses crimes deveria ser punido com a pena de "morte natural cruelmente", ou seja, execução pública por meio de torturas. Todos os bens dos justiciados passariam para a Coroa e tres gerações de descendentes ficariam "infamados para sempre, de maneira que nunca possam haver honra de cavalaria, nem de outra dignidade, nem Officio; nem possam herdar a parente, nem a estranho abintestado, nem per testamento, em que fiquem herdeiros, nem poderão haver cousa alguma, que lhes seja dada, ou deixada, assim entre vivos, como em ultima vontade, salvo sendo primeiro restituidos á sua primeira fama e estado".

Quanto aos capítulos da segunda cabeça, estavam inclusos a liberação pela força de presos já sentenciados, réus confessos ou prisioneiros de guerra, a agressão, ferimento ou morte desses presos, considerando que se encontravam sob a custódia da Coroa, a negativa de oficiais e magistrados em cederem os seus cargos e prestarem obediencia aos seus sucessores nomeados pelo rei etc. Nesses crimes, relativamente menores, a lesão á autoridade real era considerada como uma agravante, acrescentando as punições normais a desapropriação dos bens dos condenados.

Outra característica específica dos crimes de lesa-majestade era ocasionar a perda das garantias que limitavam a ação da Justiça. As Ordenações indicavam que "não gozará o acusado de privilegio algum para não dever ser metido a tormento, nem haver pena vil, porque de todo é privado. E para ser metido a tormento, bastarão menores indicios, que onde taes qualidades não concorrerem. E as pessoas, que em outros casos não poderiam ser testemunhas, nestes o poderão ser e valerão seus ditos". Mesmo assim, a disposição alertava que "se a testemunha for inimigo capital do acusado, ou amigo special do acusador, seu testemunho não terá credibilidade, mas sua fé deve ser mingoada, segundo a qualidade do ódio, ou amizade".


Inconfidencia e Rebelião na America Colonial

Não parece que o Juízo da Inconfidencia tivesse grande influencia no Brasil. Existia, evidentemente, o conceito de inconfidencia, explicitamente aplicado á chamada "Inconfidencia Mineira", mas resulta improvável que houvesse juízes da inconfidencia permanentemente estabelecidos em território americano ou mesmo que, diante dos feitos que a eles competiam, se pensasse em enviar juízes da península. á distáncia, o conceito de "lesa-majestade" deveria parecer bem menos premente que a simples conservação da ordem administrativa, política e militar. Assim, nas conspirações e revoltas, que não foram poucas, os governadores, como autoridades políticas e militares, julgavam sumariamente e executavam os réus, geralmente sem os requintes de crueldade recomendados para os crimes de lesa-majestade. O rei estava longe e, apesar da legislação, tornava-se difícil conceber que fosse diretamente lesado por ações acontecidas na America e originadas, geralmente, em conflitos meramente regionais. Se no Porto, a escassa distáncia de Lisboa, a agitação foi classificada como uma simples assoada, imagine-se o que poderia acontecer nas isoladas colonias, onde os conflitos de poder entre os diversos grupos e até mesmo entre as próprias autoridades eram habituais e onde o poder militar dos governadores se aproximava ao que exerceriamsobre uma praça de guerra.

Primeiros movimentos Brasileiros.

Em contraste com as colonias espanholas, o Brasil não contava com uma base indígena coesa. Nenhum grande império florescera antes da chegada dos portugueses e as dispersas comunidades foram prontamente dominadas ou destruidas, exceção feita das que se internaram nos territórios mais inacessíveis e, por isso mesmo, se encontravam marginadas de qualquer processo político. Quanto á população negra, muitos de cujos integrantes já conheceram, na Africa, estruturas políticas de alta complexidade, encontrava-se completamente desarraigada. Misturavam-se, nas senzalas, muçulmanos de um nível cultural relativamente elevado - os chamados "malus", que, já na época imperial, chegariam a protagonizar algum movimento digno de nota -, com membros de populações tribais, incapazes de qualquer projeto político de largo alcance. Os quilombos, expressão constante e onipresente da resistencia negra, obedeciam, apenas, a um propósito de autodefesa. Surgiam, geralmente, de maneira espontánea, pela reunião dos escravos foragidos, e procuravam, no máximo, reconstituir, em lugares afastados da cobiça dos brancos, os modos de vida e de organização que conheceram na Africa. Não consta - mesmo em experiencias bem sucedidas como a dos Palmares - que pretendessem impor qualquer tipo de estrutura á sociedade como um todo.

Limitados, também, foram os movimentos brancos do século XVII e da primeira metade do XVIII. Beckman, Filipe dos Santos e outros líderes visavam, apenas, a solução de conflitos regionais e conjunturais, sem contestar abertamente a autoridade da Coroa portuguesa. A rigor, o único movimento decididamente separatista foi o de Amador Bueno, em São Paulo, favorecido pela constituição plurinacional dessa colonia fronteiriça e pela transitória anarquia provocada pela Restauração ainda não consolidada. Prematuramente frustrada pela renuncia do líder escolhido, a tentativa revolucionária não chegou a motivar ações repressivas de grandes proporções. Rebelde e altiva por natureza, São Paulo continuaria a criar preocupação, limitando-se, porém, a conflitos setoriais: paulistas contra jesuítas, Pires contra Camargos, mineradores contra "emboabas". Todos esses conflitos acabariam controlados por soluções mais político-militares do que jurídicas.

Tal como os paulistas, os maranhenses ligados a Manuel Beckman começaram por expulsar os jesuítas. Exigiam, também, a extinção da Companhia de Jesus do Maranhão, criada na época da Restauração a instáncias do padre Antonio Vieira, que, desvirtuada nas suas finalidades, se convertera em um instrumento de exploração por parte da Coroa. Ela controlava o comércio, desvalorizando as exportações de açucar e majorando os preços do sal, da polvora e dos escravos africanos. Os jesuítas impediam a escravização dos índios, tornando ainda mais difícil obter mão de obra barata. O movimento foi sufocado, e Beckman condenado á morte pelo governador.

O mesmo aconteceu em Vila Rica, em 1720. Era intenso o desvio de ouro em pó e a Coroa, visando dificultar o contrabando, mandou estabelecer casas de fundição, que transformassem o ouro em barras, ainda perto das áreas de extração. Vários mineradores se insubordinaram e Filipe dos Santos, líder da rebelião, foi morto e esquartejado por ordem do Visconde de Assumar.

Inconfidencia Mineira

Novamente o ouro seria causa de ações revolucionárias em 1789. Esgotadas as reservas mais acessíveis e limitados os esforços por uma tecnologia ainda precária, a produção minguava constantemente. Enquanto ainda era intensa, a Coroa portuguesa vivia na opuláncia. O "quinto" (20% do ouro extraído) bastava para sustentar o reino todo. Em 1725, o ano de maior produção, vinte e cinco toneladas de ouro foram legalmente extraídas e comercializadas. Cinco delas foram, integralmente, para as arcas da Coroa.

Logicamente, esse mecanismo percentual só foi vantajoso enquanto a produção se manteve crescente. Decaindo, os impostos caíam com ela e a Coroa, já acostumada ao luxo e ao poder absoluto, resistia em reconhecer que o ouro estava acabando. Inicialmente, alegando que os mineradores fraudavam o recolhimento declarando menos ouro do que produziam, substituiu o percentual por um tributo fixo de 100 arrobas anuais (aproximadamente, uma tonelada e meia), mas chegou a hora em que a produção não dava nem mesmo para pagar o tributo, e a dívida resultante precisou ser "derramada" sobre o conjunto da população. Pela primeira vez, em 1762, o povo foi obrigado a completar com seus próprios recursos o imposto devido. Essa situação se repetiu em 1768, 1769 e 1770. Em 1788, o recolhimento se encontrava atrasado em 384 arrobas (quase seis toneladas de ouro). A produção total de um ano não alcançaria a colocá-lo em dia. Luis Antonio Furtado de Mendonça, Visconde de Barbacena, foi nomeado governador das Minas Gerais com a incumbencia especial de conduzir uma nova "derrama".

Mas o contexto internacional mudara consideravelmente. Em 1776, a Confederação dos Estados Americanos se declarou oficialmente independente. Embora essa independencia custasse a ser efetivamente consolidada, em 1783, a Inglaterra foi forçada a reconhecá-la. O Tratado de Versalhes, instrumento definitivo desse reconhecimento, transformou-se em claro precedente, a demonstrar que as colonias podiam ser livres se estivessem dispostas a sustentar a sua liberdade pela força das armas.

As idéias independentistas, canalizadas e estimuladas pela intelectualidade européia, acharam terreno fértil nos jovens latino-americanos que frequentavam as universidades. Em 1786, um deles, o carioca José Joaquim da Maia, estudante em Montpellier, chegou a entrevistar-se com Thomas Jefferson, então embaixador em Paris. Queria o apoio dos Estados Unidos para independizar o Brasil, mas não encontrou o que procurava. Jefferson, cauteloso, mostrou-se entusiasmado com a iniciativa mas limitou-se a dizer-lhe que alguns americanos poderiam colaborar a título pessoal.

Contudo, as idéias e o exemplo derivados do progresso da antiga colonia continuavam a estimular os brasileiros. Em 1788, cariocas e mineiros conspiravam ativamente, esperando uma situação favorável para iniciar a luta. José Alvares Maciel, recém-formado em Portugal e na Inglaterra, e então residente no Rio de Janeiro, e Joaquim José da Silva Xavier, alferes mineiro que fora lá tentar a sorte como médico e engenheiro, constituíram-se em nexo entre os dois movimentos.

Não era, propriamente, uma revolução, senão apenas um movimento independentista. Membros destacados da elite colonial, boa parte dos conspiradores visava, preferencialmente, aumentar suas margens de lucro por meio da liberação do comércio e da eliminação dos impostos recolhidos pela Coroa. Caso a forma de governo resultasse alterada, seria mais uma consequencia que um objetivo especéfico. A escravidão seria mantida, pois a sua abolição lesaria os interesses dos próprios conspiradores. Naturalmente, a busca da independencia tornava necessária a participação das outras capitanias. Esperava-se, uma vez deflagrado o processo, receber o apoio do Rio e de São Paulo, mas não existia uma rede organizada que assegurasse a resposta imediata das outras regiões.

O novo governador chegou em meados de 1788 e começou a preparar a "derrama". Apesar de não haver ainda anúncio oficial, a população percebia que alguma medida extrema deveria ser aplicada e os conspiradores acharam chegado o momento de intensificar a sua ação propagandistica. A inquietação deveria ser aproveitada para preparar o terreno e, logo que a derrama fosse anunciada, o movimento ganharia as ruas. Serro Frio, São João del Rei e outras cidades vizinhas estavam prontas para dar o seu apoio, e diversos fazendeiros entrariam com homens e munição, enquanto Maciel providenciava a instalação de uma fábrica de pólvora.

Mas um traidor entregou os planos. Não era estranho acontecer isso. Não dispondo, ainda, de uma polícia organizada nos moldes atuais, a Coroa estimulava e premiava as delações. Silvério dos Reis, minerador endividado com a Coroa, aderiu inicialmente ao levante mas, em 15 de março de 1789, preferiu relatar tudo ao governador, confiante, provavelmente, em resgatar a sua dívida e ainda levar algum lucro. A derrama foi suspensa e os conspiradores, desnorteados pela imprevista mudança, se deixaram prender quase sem resistencia.

Foram abertas duas devassas: uma em Minas e outra no Rio de Janeiro. 35 pessoas foram envolvidas. Entre elas, o ouvidor, Tomás Antonio Gonzaga, que, visando minimizar os indícios que lhe eram contrários, tentou dissimular, visitando o palácio do governador para cumprimentá-lo pela ação repressiva. Primava, ainda, o critério que exigia a confissão do réu, considerada "a rainha das provas". Conhecendo-o, os acusados persistiram tenazmente em negar as suas culpas, mas, um a um, acabaram cedendo aos interrogatórios. Apenas Gonzaga, escudado no seu conhecimento de leis e na auséncia de provas contra ele, negou até o fim.

Joaquim da Silva Xavier, chamado "o Tiradentes", também começou negando, mas, em 18 de janeiro de 1790 - era o quarto interrogatório que sofria - optou náo apenas por confessar mas também por assumir a culpa dos seus companheiros, dos quais se proclamou chefe e principal impulsionador, declarando té-los induzido apesar da sua vontade. Foi simples heroísmo individual ou respondia a uma manobra combinada? Apesar da incomunicabilidade que se procurava manter, não era raro os presos combinarem estratégias dentro das cadeias e, de fato, pouco depois, a chamada "conspiração dos alfaiates" iria envolver, documentadamente, um episódio dessas características. Seja como for, diversas testemunhas confirmam o altruísmo de Tiradentes, que manteria até o fim a decisão de assumir as culpas do grupo todo.

O processo se prolongou por tres anos. Um dos acusados, o poeta Cláudio Manoel da Costa, morreu na prisão, talvez assassinado, embora a versão oficial indicasse suicídio. Dos 34 restantes, 29 foram condenados. Cinco eram clérigos, e deveriam ser degradados antes de que tres deles fossem enforcados e, os dois restantes, degredados por vida. Seis dos civis, além de enforcados, teriam suas cabeças decepadas e expostas em frente de suas casas. Outros quatro seriam também enforcados, mas poupados dessa mutilação. Todos eles seriam castigados com o confisco dos bens e a infámia dos descendentes at a terceira geração, penas que também alcançariam, postmortem, ao falecido Cláudio Manuel. Os restantes, entre os quais se achava o ouvidor Gonzaga - ainda irredutível na sua negativa - foram condenados ao degredo perpétuo na Africa.

Tiradentes, auto-proclamado líder da revolta, foi condenado a que "com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde em o lugar mais publico dela será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma; e o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregado em postes, pelo caminho de Minas, no Sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios de maiores povoações at[e que o tempo também os consuma; declaram o réu infame, e seus filhos e netos, tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Cámara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e, não sendo própria, será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e no mesmo chão se levantará um padrão, pelo qual se conserve a memória do abominável réu". A sentença foi cumprida, mas a cabeça não chegou a ser consumida pelo tempo. Apenas uma semana depois, (outros relatos declaram ter desaparecido somente um dia depois)desapareceu misteriosamente do poste onde estava pregada. Já o padrão, erigido onde estivera a casa demolida, permaneceu no local até 1822. Declarada, finalmente, a independencia, foi arrancado, reivindicando-se publicamente a memória do herói.

Náo seria aplicado o mesmo rigor aos outros condenados á morte. Parcialmente exculpados pelas suas declarações e auxiliados por suas relações e o poder economico das suas famílias, todos eles obtiveram a comutação das suas penas e foram degredados.

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O trabalho de "cultivar" um árvore genalógica é um trabalho ardúo que exige dedicação porém a viagem ao tempo nos transporta por lugares nunca antes imaginado e muitas vezes descobrimos eventos sobre nossos antepassados que nos levam a ver a vida sobre outro prisma...

Foi com grande orgulho que descobri ser um descedente direto de João Francisco Junqueira e Elena Maria do Espirito Santo, esta descendente de umas das 3 ilhoas, Antonia da Graça procedente das Ilhas dos Açores.

Fiquei intrigado em descobrir aonde o sobrenome Junqueira deixou de acompanhar o meu sobrenome e foi em determinado ponto da arvore, tudo indicou que este fato teve um relacionamento com a Inconfidencia Mineira.

Sabemos que uma das 3 ilhoas, a Helena Maria de Jesus (1710-1771) casou-se com João Rezende da Costa (1699-1758) e seus filhos Cap. José de Rezende Costa (1728-1798) e Cap. Nunes de Rezende Costa (1731-1802) e neto Cap. José de Rezende Costa Filho (1765-1841) Fizeram parte da Inconfidencia Mineira e foram condenados ao degredo na Africa.

Sua filha Maria Helena de Jesus (1729-1812) casou-se com o Cap. José Antonio da Silva que entre outros filhos tiveram o Cap. Elias Antonio da Silva Rezende, casado com a Anna de Jesus de Goes e Lara, onde entre outros tiveram o filho Tenente Elias Antonio da Silva Rezende Filho, casado com Ana Josepha da Silva, agora nasceu em 1819 o Francisco de Paula Dias, que na realidade se deveria chamar Francisco Silva Rezende, mas que pelo que tudo indica ter a ver com a Inconfidencia Mineira por ter sido descendente do inconfidente Rezende que condenou até tres gerações da familia Resende pelo crime de "Lesa Magestade" como vimos no artigo acima.

Vimos que Francisco "Silva Rezende" de Paula Dias, casou-se com Ellena Francisca Andrade Junqueira, a bisneta da Matriarca Elena Maria do Espirito Santo, que por sua vez era uma descedente da ilhoa Antonia da Graça, que era irmã da Helena Maria de Jesus que era também conhecida como uma das 3 ilhoas, de onde originou a familia Rezende.

Estes dois ramos da familia originario da ilha do Fayal nos Açores, se encontravam em terras brasileiras depois de mais de seis gerações, porém, ao meu parecer, devido ao evento da Inconfidencia Mineira, Francisco "Silva Rezende" que nasceu em 1819, estaria ainda sob o influencia do castigo imposto a sua familia, sob o crime de "lesa-Magestade", o que levou estas familias a esconder os fatos de suas origens, tentando substituir seus sobrenomes por outros que não fossem Rezende por receio que isto causaria adversidades aos seus descendentes. Tudo indica que o sobrenome Junqueira também optou por ficar de fora.

Meu bisavö, Cel. Marcos "Junqueira Rezende" de Souza Dias, filho de Ellena e Francisco, assim como seus irmãos não ostentaram estes sobrenomes que para mim são motivo de orgulho e que hoje pretendo resgatar adotando para efeito de nossa arvore familiar o nome de Enio de Carvalho Dias, "Junqueira Rezende"

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Other:A Revolta dos escravos na Fazenda dos Junqueiras em 13 de Maio de 1833
Posted by: Enio Carvalho Dias on May 22 2011 21:24

A REVOLTA DOS ESCRAVOS NA FAZENDA BELA CRUZ

Ao ler o relato abaixo que consta em um livro de autoria de Marcos Ferreira de Andrade , (Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense – UFF e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ – curso de História.) que considero uma passagem importante na história da familia.

"Negros rebeldes nas Minas Gerais: A revolta dos escravos de Carrancas (1833)

1. Introdução

O processo-crime que o leitor terá oportunidade de visualizar a seguir é uma sintese do processo original de mais de quatrocentas páginas, relata a história da maior rebelião escrava que ocorreu nas Minas Gerais, nas fazendas da família Junqueira, localizadas no curato de São Tomé das Letras, freguesia de Carrancas e comarca do Rio das Mortes.

O processo-crime foi instaurado a partir da denúncia de Gabriel Francisco Junqueira, futuro barão de Alfenas, em virtude das mortes de seus familiares, executadas pelos escravos.

Notadamente, nas partes definidas como auto de perguntas aos réus e inquirição das testemunhas, é possível ao historiador reconstituir aspectos do cotidiano da escravidão e a versão dos depoentes, na medida em que empreenda uma análise cuidadosa das diversas falas, buscando captar o que está contido nas entrelinhas dos depoimentos. Embora se trate de fontes oficiais, produzidas pelos agentes de repressão, o que de certa forma condiciona o tipo de informação disponível, é possível entrever na fala dos implicados aspectos e particularidades do seu cotidiano e das relações sociais estabelecidas. Como afirma João José Reis, "a história dos dominados vem à tona pela pena dos escrivães de polícia".

1. O cenário

O dia era 13 de maio de 1833. O sol ainda estava a pino e mais um dia na fazenda seguia seu ritmo intenso de trabalho, como de costume. Na parte da manhã, os escravos já tinham tirado o leite, alimentado os bois, as vacas e os cavalos e, do meio-dia para à tarde, estavam trabalhando na roça, cuidando das lavouras de milho, feijão, arroz, fumo, etc. Vindos de longe e de diferentes regiões da África, fizeram a dolorosa travessia nos navios negreiros e depois foram desembarcados no porto do Rio de Janeiro. Alguns deles tiveram como destino final às fazendas sul-mineiras, localizadas no curato de São Tomé das Letras, freguesia de Carrancas, comarca do Rio das Mortes. Aqui chegando, juntaram-se a outros, muitos deles descendentes de africanos, já nascidos no Brasil. A adaptação, a sobrevivência em terra estranha, o trabalho pesado, a perda dos laços familiares e culturais, exigiam força e determinação para reconstruir uma nova vida, dentro das condições possíveis impostas pelo cativeiro. Muitos conseguiram estabelecer novos laços familiares, preservar alguns aspectos de sua cultura, mesmo sob a vigília constante do feitor e do senhor. Outros viveram como lhes era possível naquelas condições, mas em suma, a grande maioria viveu uma vida escrava. Aquela tarde de 1833 seria fatídica e traçaria um novo rumo para muitos escravos das fazendas Campo Alegre e Bela Cruz. Estas faziam parte de uma grande extensão de terra concedida pela Coroa a João Francisco, português de São Simão da Junqueira. Este chegou na comarca do Rio das Mortes por volta de 1750 e deixou numerosa descendência, dando início à saga de uma grande família do sudeste mineiro, detentora de grandes propriedades e escravaria. Na terceira década do século XIX, as propriedades de seus filhos estavam entre as melhores e as mais bem equipadas, com grande número de cabeças de gado, cavalos e porcos e vendiam grande parte de sua produção na Corte. A importância sócio-econômica da família também se refletiu no campo da política, pois um de seus membros, Gabriel Francisco Junqueira, tornou-se deputado geral da província de Minas, por várias legislaturas seguidas ao longo da década de 30. Para os escravos parecia que as coisas não tinham mudado muito, ou ao contrário, o vaivém de tropas entre Minas e Rio de Janeiro e vice-versa e o desenvolvimento das propriedades, só fez aumentar o ritmo de trabalho. Era mais gado para cuidar, mais roças para plantar e os parcos recursos existentes para os escravos se tornavam mais disputados, pois o número de cativos também crescia, exigência quase que natural para tocar os negócios das fazendas. Alguns deles exerciam a atividade de tropeiro e estabeleciam contato freqüente com a Corte e ficavam sabendo, a seu modo, dos últimos acontecimentos e eram responsáveis não só pelo transporte de mercadorias, mas também de notícias. A importância das propriedades da família Junqueira podia ser percebida pelo número de escravos que nelas havia para tocar os negócios das fazendas. Quase sempre esse número ultrapassava a 30 cativos, coisa rara no cenário escravista mineiro naquela época, e em algumas delas este número podia chegar a mais de 50 ou até mesmo mais de 100 escravos.

2. Campo Alegre e Bella Cruz: O palco da tragédia

As fazendas Campo Alegre e Bella Cruz, que atualmente se localizam no município de Cruzília, serviram de palco ao trágico acontecimento que, no plano da história, representou um marco das insurreições escravas na província de Minas Gerais; no plano da memória dos contemporâneos, um massacre que muitos, se pudessem, apagariam da memória.

Já para os escravos, representou uma tentativa desesperada e arriscada na busca da liberdade, com conseqüências também funestas para muitos deles. A fazenda Campo Alegre pertencia ao deputado Gabriel Francisco Junqueira e em 1839 contava com 103 escravos que, certamente, cuidavam do gado, dos porcos e do plantio das roças. Tratava-se de uma grande unidade escravista que se desenvolveu em virtude das conexões mercantis com a Corte.

Em 1868, ano da morte do deputado, ainda era possível verificar os indícios de uma propriedade que deveria ter sido bastante expressiva na década de 30. Entre os bens que foram arrolados, a escravaria ainda era considerável, nada menos que 92 cativos. A produção agrícola era bastante diversificada destacando-se vários alqueires de feijão, milho e arroz plantados. Também havia um canavial e fumal. As benfeitorias da fazenda demonstravam que a produção agro-pastoril estava entre as atividades que fizeram a fortuna dos grandes fazendeiros da região. As atividades comerciais ligadas ao abastecimento podem ser inferidas a partir das benfeitorias localizadas nas fazendas Campo Alegre, Narciso e Boa Vista, onde havia referências à existência de casas para tropas e queijos, além de engenhos de serra, moinhos e monjolos, currais e casas de fumo.

A fazenda Bela Cruz compreendia uma vasta região composta de terras de cultura e campos de criar. Achava-se dividida e cercada por valos e muros de pedra. Entre as benfeitorias da fazenda constava uma "morada de casas de vivenda (...) com cozinha, paiol, moinho, senzalas tudo coberto de telha, monjolo, chiqueiro e rancho de carros tudo coberto de capim, como currais, e quintal cercados de muros de pedra, com arvoredos de espinhos e outros, e rego d’água (...)."

Naquele 13 de maio fatídico de 1833, tudo parecia transcorrer sem maiores sobressaltos nas fazendas da família Junqueira. A fazenda Campo Alegre estava sob a responsabilidade do filho do deputado, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, que, na ausência do pai, conduzia todos negócios da fazenda, além de supervisionar o trabalho dos escravos. Naquele dia, seu pai se encontrava na Corte, cuidando de suas funções no parlamento nacional. Antes do meio-dia, como de costume, foi até a roça fiscalizar o trabalho de seus escravos. Como sempre fazia, solicitou a um cativo da casa que arriasse o seu cavalo, montou-o e seguiu em direção à roça. Ao chegar na roça não percebeu nada de estranho e, como sempre, encontrou os escravos preparando a terra, cuidando das lavouras de milho e feijão. A tranqüilidade era apenas aparente. Sem condições de oferecer nenhuma reação, ainda montado em seu cavalo, Gabriel Francisco foi surpreendido por Ventura Mina, quando foi retirado à força de cima do cavalo, e juntamente com Julião e Domingos, deram-lhe várias porretadas na cabeça, levando-o à morte alguns instantes depois.

A partir do ocorrido, alguns dos escravos que estavam trabalhando na roça naquele momento engrossaram o grupo e seguiram em direção à sede da fazenda Campo Alegre, todos liderados por Ventura Mina. Além de Julião e Domingos, o grupo agora era bem maior e contava com a participação de Antônio Resende, João, cabunda, André, crioulo, e José, mina, entre outros. Só não atacaram a sede da fazenda porque um escravo, de nome Francisco, havia saído às pressas em direção à sede da fazenda, avisando aos outros familiares do deputado o que havia acontecido na roça. Os escravos chegaram até ao terreiro da fazenda e perceberam que ela estava guarnecida por dois capitães do mato. Então os insurgentes "arripiaram a carreira tomando a direção da fazenda Bela Cruz".

O momento mais dramático da revolta teve como cenário esta fazenda, onde os escravos assassinaram todos os brancos ali existentes.

Na parte do processo definida como auto de corpo de delito, o leitor irá encontrar uma descrição detalhada de como foram executadas as mortes. O relato foi elaborado com base no depoimento de três testemunhas, todos moradores no arraial de São Tomé das Letras, que viram o estado em que se encontravam os corpos.

Depois de deixarem a fazenda Campo Alegre, os escravos, liderados por Ventura Mina, seguiram em direção à fazenda Bela Cruz. Chegando à roça da dita fazenda, os insurgentes relataram aos outros escravos o que ocorrera em Campo Alegre, convocando-os a fazer o mesmo com os brancos da Bela Cruz. A partir daquele momento o grupo se ampliara, ultrapassando o número de 30 cativos, que logo se dirigiu à sede da dita fazenda.

A partir daquele momento, dois grupos se formaram: o primeiro, liderado por Ventura Mina, escravo da fazenda Campo Alegre, e segundo, por Joaquim Mina, escravo de José Francisco Junqueira, da fazenda Bela Cruz. Os escravos invadiram a casa grande de seus senhores, investindo diretamente contra José Francisco Junqueira, sua mulher, Antônia Maria de Jesus, que se recolheram rapidamente e se trancaram num quarto. Nem por isso escaparão da violência dos cativos. O escravo Antônio Retireiro buscou um machado na senzala e o "entregou a Manoel das Vacas o que ficou trabalhando para arrombar a porta, enquanto aquele voltou a senzala, e trouxe uma pistola carregada saltando o muro, e foi arrombar a outra porta de trás".

Depois de arrombarem a porta do quarto, Antônio Retireiro, com a arma que tinha na mão, disparou na face de seu senhor, ficando mortalmente ferido e "ainda teve que sofrer muitos maiores tormentos, com sua mulher, filha e neta, os quais foram todos massacrados com inaudita crueldade dentro daquele quarto a olho de machado, tendo parte nesta incrível matança todos os escravos vindos de Campo Alegre (...) e grande parte dos da Bela Cruz".

No auto de corpo de delito consta que a mulher de José Francisco Junqueira, além de apresentar ferimentos no rosto, couro cabeludo e grande efusão de sangue, cujas feridas foram feitas com instrumentos cortantes, também se encontrava bastante ensangüentada da cintura para baixo, causando certo constrangimento às testemunhas, impedindo que dessem prosseguimento ao exame.

Ana Cândida da Costa, viúva de Francisco José Junqueira e duas crianças seriam as próximas vítimas dos escravos. Esta foi morta a golpes de foice e cacetadas no quintal da dita fazenda pelos escravos Sebastião, Pedro Congo, Manoel Joaquim e Bernardo. O estado em que foi encontrada era lastimável, pois sua cabeça e rosto estavam irreconhecíveis e não se achava "unida ao corpo". Já o menino José "foi morto pelo crioulo Andre, e o mesmo Pedro Congo e Manoel Joaquim, a menina Antonia (...) foi morta pelo Manoel das Caldas, Sebastião e Bernardo, e a criança de peito (...) foi morta pelo crioulo Quintiliano que a mandou lançar pelo Euzébio no cubo do Moinho".

Os escravos utilizaram-se de instrumentos de trabalho -paus, foices e machados -e mesmo armas de fogo para cometer os ditos assassinatos nas referidas fazendas. A crueldade com que foram executadas as mortes, relatadas com detalhes no auto de corpo de delito indireto, certamente contribuiu para extremar o pavor em relação às rebeliões escravas, reforçar os mecanismos de controle e repressão e revelar o caráter aterrador da violência coletiva em si. Dona Emiliana Francisca Junqueira, por exemplo, "se achava com um grande golpe na cabeça pela parte de trás e logo acima na nuca que lhe tinha separado a maior parte do crânio, além de muitas outras feridas que tinha no rosto e que todas mostravam ser feitas com instrumentos cortantes.

Os escravos estavam determinados a exterminar todos os brancos daquela propriedade, tanto que parte dos escravos permaneceu na Bela Cruz e preparou uma emboscada para também assassinar o genro de José Francisco, Manoel José da Costa, mandando avisá-lo "do sucesso ali acontecido, e que todos tinham já partido para o Jardim e acudindo ele a casa sem refletir no engano assim que foi entrando pela porteira saíram os que estavam de emboscada, e o mataram com paus".

Alguns escravos ficaram atrás da senzala, outros, atrás de uma casa de carros e um terceiro grupo, encostados no muro pela parte de dentro. Assim que Manoel José da Costa atravessou a porteira estes "cairão sobre ele e o mataram a bordoadas, e por fim não ficando ainda bem morto deram lhe um tiro".

Liderados pelo escravo Ventura Mina, o outro grupo seguiu em direção à fazenda Bom Jardim, para ali fazerem o mesmo e darem prosseguimento à rebelião. Encontraram no caminho, um agregado da mesma fazenda que se dirigia à Bela Cruz em busca de mantimentos. Os escravos o assassinaram, "sendo o Ventura que lhe deu o primeiro golpe mortal com sua foice e depois o acabou de matar Manoel das Vacas com um porrete".

Ao chegarem nesta fazenda encontraram forte resistência por parte do proprietário e seus escravos, sendo o líder Ventura ferido gravemente. João Cândido da Costa Junqueira já havia se informado dos acontecimentos funestos de Campo Alegre e Bela Cruz e, rapidamente, armou seus escravos e os reuniu em uma sala e ficou a espera dos escravos insurgentes. Depois de um tempo, estes apareceram e depois de "repulsados com dois tiros, dispersaram".

As informações sobre os combates entre as forças repressoras e os escravos rebeldes são escassas e não mereceram muita atenção nos relatos feitos pelas autoridades da época. O presidente da Província, Manoel Ignácio de Melo e Souza, em correspondência dirigida ao ministro da Justiça, Honório Hermeto Carneiro, ao relatar sobre os acontecimentos de Carrancas, informava que também tinham sido assassinadas duas pessoas de cor preta, provavelmente escravos domésticos ou forros que desfrutavam de uma convivência mais próxima com seus senhores.

3. Repressão e pena de morte

Assim que proprietários e autoridades da região tomaram conhecimento dos acontecimentos, mobilizaram um grande esquema repressivo, convocando autoridades, proprietários e a Guarda Nacional para "bater em retirada" os escravos insurgentes. Ventura Mina, João Inácio, Firmino, Matias e Antonio Cigano foram mortos no confronto.

O juiz de paz de Baependi, Antônio Gomes Nogueira Freire, relatou as medidas preventivas tomadas, como por exemplo, o reforço da vigilância em outras propriedades, principalmente naquelas onde se concentrava um grande número de escravos, como era o caso das fazendas da Traituba, Santo Inácio, Favacho, Bom Jardim das Penhas e do próprio curato de São Tomé das Letras. Como a rebelião ocorreu entre os limites da freguesia de Carrancas e do termo de Baependi, a atuação do mesmo juiz foi providente no sentido de restabelecer a tranqüilidade e a ordem, uma vez que o curato de São Tomé estava sem juiz de paz, que foi assassinado pelos rebeldes. O clima de terror atingiu toda a vizinhança. Um acontecimento dessa proporção, seguramente, mereceria empenho das autoridades e proprietários da região, no sentido de evitar uma onda sucessiva de levantes, justamente numa localidade onde havia uma grande concentração de escravos. Como já mencionei anteriormente, as propriedades da família Junqueira na região eram formadas por escravarias acima de 30 cativos, em alguns casos chegando a atingir um número expressivo de 163 escravos.

Como se tratava de uma região estratégica, de grande importância econômica, próxima das estradas que interligavam as províncias de São Paulo e Rio de Janeiro a Minas Gerais, os acontecimentos da freguesia de Carrancas ganharam repercussão em algumas vilas e distritos limítrofes, pertencentes a estas províncias. No dia 15 de maio de 1833, o juiz de paz de Pouso Alto colocou a câmara municipal de Rezende a par dos acontecimentos de Carrancas, pois os escravos planejavam atacar outras fazendas, como a do Favacho e Traituba e depois se dirigir a Baependi e outros lugares. O referido juiz lembrou ainda o risco que poderia representar a dispersão dos insurgentes e a necessidade de se tomar medidas preventivas no sentido de evitar novos levantes, já que a vila de Rezende era limítrofe à freguesia .

O referido Juiz recomendou ainda aos vereadores da vila de Rezende que fossem transmitidas essas informações à câmara de Areias e a outras que julgasse conveniente. Algumas regiões do vale do Paraíba paulista, como Areias e Bananal, foram logo informadas da insurreição em Minas Gerais. Como eram regiões com grande concentração de escravos em função da expansão da cultura cafeeira, os vereadores de Bananal foram imediatamente convocados para uma sessão extraordinária e secreta, no dia 21 de maio, onde ficou acertada uma série de medidas para que se evitassem maiores repercussões dos acontecimentos de Minas na região. Por exemplo, no centro da vila se colocaria uma força de quarenta soldados, parte da cavalaria e parte da infantaria, devidamente munida de pólvora e bala.

Medidas semelhantes foram tomadas pela câmara de Areias, depois de comunicada sobre os acontecimentos, pelas câmaras das vilas de Lorena e Rezende.

Se o boato de insurreição já constituía motivo suficiente para autoridades e proprietários aumentarem suas apreensões e reforçarem os mecanismos de controle, isto se tornava mais veemente quando se tratava de um levante de grandes proporções, como o de Carrancas. O risco iminente de uma onda sucessiva de levantes fez com que o poder público interferisse no domínio privado do senhor, determinando maior cuidado e vigilância com seus escravos. Os fazendeiros deveriam guardar com segurança as ferramentas agrícolas, tais como foices, machados e enxadas, que poderiam se tornar armas perigosas nas mãos de escravos rebeldes, com conseqüências funestas para proprietários, seus familiares e prepostos. O caso de Carrancas já era exemplo suficiente para demonstrar os riscos que enfrentariam os senhores num possível confronto com escravos. Os escravos rebeldes de Carrancas foram exemplarmente punidos, sendo que 16 deles foram condenado à pena de morte por enforcamento e executados em praça pública, em dias alternados e com cortejo da Irmandade da Misericórdia, na vila de São João del Rei, na antiga rua da Forca. Alguns escravos foram condenados como cabeças de insurreição, de acordo com o artigo 113 do Código Criminal, que estabelecia a pena capital para crimes dessa natureza. Outros foram condenados pelo crime de homicídio qualificado, artigo 192 do mesmo código. Trata-se de uma das maiores condenações coletivas à pena de morte aplicada a escravos na história do Brasil Império. Embora na Revolta dos Malês houvesse um número semelhante de condenados à pena máxima, somente quatro escravos foram fuzilados, o restante teve a sentença convertida para açoites ou galés em segundo julgamento.

Somente Antônio Resende, escravo do deputado Gabriel Francisco Junqueira, conseguiu impetrar uma petição de graça ao Imperador e teve a vida poupada, pois servira de algoz de seus companheiros. Primeiramente, foi preso na cadeia de Ouro Preto, de onde fugiu em 1835. Tinha "estatura ordinária, cheio de corpo, beiços grossos, ponta de buço, rosto liso, chato..."

Em julho de 1848, se encontrava preso na cadeia de São João del Rei, e solicitava a transferência para a Santa Casa de Misericórdia para tratar de inflamações e dores no peito, sendo identificado na petição como Antônio Resende, o carrasco.

Parece que a função de algoz lhe serviu de alcunha para o resto de sua vida. Depois desta data não consegui localizar mais nenhuma informação sobre ele. O mais provável é que tenha morrido na cadeia de São João del Rei. Os acontecimentos de Carrancas atemorizaram não só os proprietários mineiros, como também as regiões limítrofes à comarca do Rio das Mortes, como já foi demonstrado, e até mesmo o governo da Regência. Dentre os quatro projetos enviados à Câmara dos Deputados no dia 10 de junho de 1833, um era referente ao julgamento dos crimes de escravos. Segundo João Luiz de Araújo Ribeiro, esse projeto tem ligação direta com os acontecimentos de Carrancas e foi amplamente discutido na câmara e no senado e antecipava em muitos pontos o texto da lei nefanda de 10 de junho de 1835 que estabeleceu a pena de morte para escravos envolvidos no assassinato de seus senhores, familiares e prepostos. No projeto de 1833 previa-se a supressão do júri para julgamento de crimes dessa natureza, sendo substituído por uma junta de juízes de paz da região aonde ocorresse o crime.

4. "Nós somos os caramurus, vamos arrasar tudo": A expectativa da liberdade

Depois de iniciado o processo, as autoridades policiais e judiciárias convocaram 51 pessoas para depor como testemunhas, com objetivo de se distinguir os cabeças da insurreição, o plano dos insurgentes e se houve participação de brancos no agenciamento da revolta. O grau de organização e planejamento da revolta é revelado pelo sucesso do movimento e a articulação entre os escravos de várias fazendas da família Junqueira. Entre os escravos acusados como cabeças de insurreição destacam-se os seguintes: Ventura Mina (fazenda Campo Alegre), Joaquim Mina (fazenda Bela Cruz), Jerônimo e Roque Crioulos (fazenda da Prata) e Damião (Campo Belo). Este último se enforcara quando soube que fora denunciado.

Ventura Mina era escravo do deputado Gabriel Francisco Junqueira e foi apontado como o líder e o principal articulador da revolta, realizando contatos com escravos das diversas fazendas da região. Na noite antecedente à revolta, este foi à Bela Cruz e "estivera na senzala de Joaquim Mina, onde mandara chamar alguns outros escravos da mesma fazenda, e aí trataram de romper insurreição no outro dia (...)."

Segundo José Mina, há mais de dois anos o escravo Ventura "tratava desta insurreição e lhe comunicara isto mesmo assim que seu senhor [o] comprou e o trouxe do Rio de Janeiro para esta fazenda (...)."

Apesar de ter sido morto no confronto, seu espírito de liderança é destacado tanto pelos escravos, quanto pelas testemunhas e autoridades da época. As informações que dispomos sobre ele são escassas e muitas vezes vêm filtradas pela pena das autoridades judiciárias, o que de forma alguma as invalida. O que se pode depreender dos autos é que Ventura era um escravo de gênio empreendedor e sagaz, era amado, obedecido e respeitado por todos. Essa versão é relatada com certa recorrência em várias partes do processo."Ventura além de ter um gênio fogoso e ardente era empreendedor, ativo, laborioso, tinha uma grande influência sobre os réus e estranhos de quem era amado, respeitado e obedecido".

A partir das informações apontadas nos autos, poderíamos especular que Ventura talvez teria sido um rei Mina com grande ascendência sobre os outros escravos.

O Juiz de Paz de Baependi se referiu ao escravo Ventura, como aquele "que se havia coroado Rei" dos escravos. Os escravos Roque e Jerônimo, ambos crioulos e da fazenda da Prata, também foram acusados de serem cabeças da insurreição. Como exerciam a atividade de tropeiro e faziam freqüentes viagens ao Rio de Janeiro, o que certamente lhes facultava maiores facilidades em captar o clima de conturbação política da Regência, ficaram encarregados de providenciar armamentos para garantir o sucesso da revolta, acusação confirmada pelos próprios réus. Segundo os autos, a intenção dos escravos era de assassinar todos os brancos da freguesia de Carrancas e apossar de suas propriedades. Para isso, primeiramente seriam invadidas as fazendas Campo Alegre, Bela Cruz, Jardim, Campo Belo, Campo Formoso e Carneiros. Depois de executados os assassinatos nas ditas propriedades, estes voltariam reunidos e fariam o mesmo nas fazendas Santo Inácio, Favacho, Traituba e Penhas. A partir daí os escravos se dividiriam "em duas porções dos quais uma seguiria para o Espírito Santo a extinguirem a família dos Andrades e outra para Carrancas a extinguirem as famílias dos Machados e mais Fazendeiros desse lado..."

Evidentemente que se trata aqui de uma versão oficial, corroborada por autoridades judiciárias, proprietários e testemunhas e que revela a histeria dos brancos diante da rebeldia e organização dos escravos. Se os boatos de levantes já colocavam a elite senhorial em estado de alerta, não seria muito difícil de imaginar o desespero desta quando as revoltas ocorressem de fato. Embora se perceba um certo exagero na fala das autoridades e proprietários de Carrancas, o nível de articulação entre escravos de diversas fazendas foi surpreendente e se a rebelião não fosse imediatamente contida, os temores da elite poderiam se confirmar. A percepção que os escravos tinham do contexto dos acontecimentos e suas justificativas para a participação ou não da rebelião podem ser captadas nos seus respectivos depoimentos. Julião Congo, por exemplo, se ocupava de várias funções na fazenda Campo Alegre, sendo utilizado no serviço da roça, em tirar leite e capinar. Em seu interrogatório, quando lhe foi perguntado se tinha algo que produzir em sua defesa, se referiu aos "maus tratos" que sofria de seu senhor moço, o Juiz de Paz de São Tomé das Letras, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira. "Respondeu que seu senhor o tratava de mandrião, não estava contente com o seu serviço, dava-lhe pancadas, ainda mesmo quando estava doente".

Independente da veracidade dessas acusações, o que está contido nas entrelinhas da fala de Julião é a apresentação de uma justificativa clássica para se rebelar contra seu senhor. O fato de ser castigado, mesmo quando estava doente, poderia servir de argumento que justificasse sua revolta e participação no assassinato de seu senhor, ou ainda, que tal argumento pudesse contribuir para a diminuição de sua pena, embora isso não tenha ocorrido. Manoel Joaquim, natural de Angola, apresentou como justificativa para a sua participação na insurreição o fato de ter sido ameaçado pelos outros companheiros. "Respondeu que havia acompanhado os outros mais velhos que os ameaçavam de tirar-lhes a cabeça se assim não fizesse (...)."

Já Julião crioulo, escravo natural de Campo Alegre, se refere explicitamente à expectativa de ficar livre, respondendo que participou da insurreição porque "tinha sido mandado e tivera esperanças de ficar forro".

Os outros, quando foram convocados a dizer algo em sua defesa, nada responderam, ou, possivelmente, suas respostas não foram registradas nos autos. O silêncio da grande maioria dos escravos também tem algo a nos dizer. Em crimes dessa natureza, a condução do processo era realizada de forma a limitar todos os mecanismos legais aos quais os escravos poderiam lançar mão para apresentarem sua defesa.

Era necessário punir, e de modo exemplar. Quando as testemunhas foram inquiridas sobre a possível participação de pessoas livres no agenciamento dos escravos à insurreição, Francisco Silvério Teixeira aparece como o principal suspeito e responsável pelos acontecimentos desastrosos de Campo Alegre e Bela Cruz. Os escravos, ao serem inquiridos sobre a mesma questão, se remetem ao contato que Francisco Silvério teve com o líder Ventura. Estes teriam ouvido do falecido Ventura que "Francisco Silvério era a causa disso dizendo que no Ouro Preto haviam muitas pessoas voltadas com a boca para cá afim de matarem todos os brancos e ficarem os negros forros".

Em outro depoimento, o escravo José Mina afirma que tinha também ouvido de Ventura que Francisco Silvério era o causador de tudo aquilo, informando-lhes que "os brancos no Ouro Preto estavam se guerreando entre si, matando aos outros, e que era boa ocasião deles se levantarem e ficarem forros (livres) matando a seus senhores".

O escravo Jerônimo crioulo também acusa Francisco Silvério de encomendá-lo, no Natal de 1832, "uma porção de armas que pudesse, e que as deixasse ficar no Rio em Casa de alguma pessoa conhecida". Segundo Jerônimo, apesar de ter prometido trazer as armas, não o fizera por desconfiar de quem as encomendava.

A acusação de agenciador da insurreição foi reforçada pelo depoimento de todas as testemunhas e confirmada no libelo-crime acusatório. Francisco Silvério Teixeira era fazendeiro e negociante e possuía 19 escravos, em 1834.

Era natural da cidade de Ouro Preto e residia em sua propriedade denominada Rio do Peixe, localizada no distrito dos Três Corações de Jesus, Maria e José do Rio Verde,pertencente ao termo da Campanha, onde se dedicava à agricultura e à criação de gado. Segundo o Juiz de Fora da vila de Campanha, ao atestar a favor do réu, Francisco Silvério era um dos abastados "lavradores de cultura e criação de gados, na sua fazenda do Rio do Peixe, com boa escravatura, e numerosa família de mulher e filhos (...)."

A maioria das testemunhas o acusou de manter contato com os escravos insurgentes, principalmente com o líder Ventura, e de estar próximo ao local, momentos antes do início da revolta. Foi acusado de ser agente e incitador dos escravos, além da suspeita de promover a rebelião com a finalidade de desviar a marcha que iria combater os sediciosos em Ouro Preto. "Francisco Silvério se encontrou tanto interessado na Sedição de 22 de março do Ouro Preto, que dissuadiu aos guardas nacionais para não marcharem contra os sediciosos, e ele mesmo nessa ocasião girava continuamente do Ouro Preto para as partes de Carrancas e vice-versa (...)."

A província de Minas Gerais, no período Regencial, foi palco de disputas entre liberais e restauradores, também alcunhados de caramurus. O movimento mais conhecido foi a Sedição Militar de 1833, também alcunhada como a Revolta do Ano da Fumaça, quando restauradores tomaram o poder na capital da Província, entre os meses de abril e maio, sendo o governo legal foi transferido para a vila de São João del Rei. Foi nesse contexto de divergências e disputas políticas entre liberais e restauradores que ocorreu a revolta de Carrancas. Segundo consta dos autos, Francisco Silvério teria orientado os escravos para se rebelarem, utilizando como artifício para seduzi-los, falsas notícias, como por exemplo, a de que os caramurus já haviam libertados os escravos de Ouro Preto e que era o momento de em Carrancas se fazer o mesmo. Que interesses moviam Francisco Silvério ao incitar os escravos a se insurgirem contra seus senhores? Esta não seria uma estratégia muito arriscada também para ele, que também possuía um número razoável de escravos? E para os escravos o que representou lançar mão de uma estratégia também não menos arriscada na busca da liberdade? Se tomarmos como procedente a versão de Gabriel Francisco Junqueira, Francisco Silvério teria promovido a insurreição com objetivo de dificultar a formação da milícia que iria combater os sediciosos de Ouro Preto. Esta acusação parece ser bastante procedente, pois a insurreição estava programada para acontecer no dia 26 de maio, no domingo da festa do Espírito Santo e teria sido antecipada em virtude de várias vilas terem aderido ao governo provisório, sediado em São João del Rei, acenando com a vitória dos moderados. Seria Francisco Silvério um partidário da facção restauradora e que se utilizou dos escravos a reboque de seus interesses políticos?

Este constitui um caminho bastante atraente para compreender o seu envolvimento no incitamento dos escravos à insurreição. A revolta ocorreu em algumas propriedades da família Junqueira, uma família que conquistou grande projeção política, social e econômica na região centro-sul, extrapolando os limites da província.

Dada a importância desta família e a extensão de seus negócios, de suas relações sociais e políticas estabelecidas na região, certamente possuíam alguns "inimigos" políticos. Não se pode esquecer que, em 1831, Gabriel Francisco Junqueira derrotou o candidato do Imperador, o Ministro Silva Maia.

Certamente não foi uma derrota muito bem digerida para os partidários da facção restauradora, que voltariam à cena política dois anos mais tarde. Algumas testemunhas inquiridas no processo confirmam tais impressões. José Rodrigues Carneiro, homem branco, natural da freguesia de Aiuruoca e morador no termo de Lavras do Funil, quando esteve na vila de São João del-Rei, em abril de 1831, e estando "sentado no Balcão da Loja de Manoel José da Costa Machado, passava nessa ocasião pela rua Gabriel Francisco Junqueira, então disse o Costa Machado para ele testemunha ali vai o seu Deputado de merda", mostrando descontentamento por ele ter sido eleito e derrotado o Ministro Maia. Naquela mesma noite, estando a testemunha conversando sobre "negócios políticos e divisões de partido" o mesmo Costa Machado dissera que, " para as coisas tomarem jeito, e ficarem em sossego era necessário tirar-se um par de cabeças na freguesia de Carrancas".

Ainda segundo o depoimento de outra testemunha, Ana Matildes de Nazareth, mulher branca, viúva e natural da freguesia de Carrancas, "havia pessoas que apostavam contos de reis, em como o deputado Gabriel Francisco Junqueira, seria morto em Caminho, na ida [ou] na volta da Sessão presente (...)."

Em função dessas disputas alguns oponentes da família Junqueira poderiam muito bem utilizar-se dos escravos para por fim ao domínio da família na região. A análise ficaria empobrecida se somente esse aspecto fosse considerado. Ainda que "orientados" por um branco, o que representou para esses escravos lançar mão de recurso tão arriscado para se conseguir a liberdade, como é o caso de uma insurreição? É impossível conceber que os escravos fossem simplesmente instrumentalizados de acordo com os interesses de Francisco Silvério ou de quem quer que seja. Ainda que o processo criminal seja um documento oficial, normativo e busque apurar determinada verdade sobre um crime, é possível depreender dos autos a suposta "fala" dos implicados, ou ainda, a percepção que os escravos tinham dos conflitos políticos de seu tempo. Nesse sentido, algumas partes do processo como no depoimento das testemunhas e dos próprios réus são reveladores de como essa percepção foi estabelecida. Muitas vezes, os boatos desempenharam um papel catalisador no surgimento de insurreições. Em 1831, o Vigário Joaquim José Lobo tentou persuadir os escravos espalhando o boato de que estavam forros e que "o ex Imperador os queria forrar, e que os seus senhores é que se opunham a isso, e que por esse motivo é que o lançaram fora do Brasil".

A menor alusão à expectativa de liberdade já constituía motivo suficiente para que os escravos ensaiassem suas tentativas de revoltas. Certamente os escravos possuíam seus próprios meios de ficar a par das dissensões políticas que assolavam a província de Minas Gerais naquele tempo. Não era preciso ir muito longe, pois ali mesmo na freguesia de Carrancas, entre as disputas políticas travadas por famílias influentes e detentoras de consideráveis fortunas e escravarias, estavam os cativos fazendo as leituras possíveis e as alianças possíveis para atingirem o seu objetivo maior: a conquista da liberdade. A percepção que os escravos tinham dos conflitos entre brancos e como se dava essa apropriação pode ser captada através de um depoimento muito interessante da testemunha Maria Joaquina do Espírito Santo, mulher parda, agregada e moradora na fazenda Bom Jardim. O grupo de escravos, liderados por Ventura, que se dirigiu para a fazenda do Jardim, na noite do dia treze, passou pela casa da testemunha. Depois de ameaça-la, exigiu que lhes entregassem logo as espingardas que havia na casa. Um dos escravos que fazia parte do grupo, o preto Antônio Benguela, "pulava no seu terreiro e batia nos peitos dizendo para ela e seu companheiro vocês não costumam a falar nos caramurus, nós somos os Caramurús, vamos arrasar tudo...".

5. Considerações finais

Espero ter conseguido despertar o interesse do leitor para perceber que a cópia do documento que ora lhe é apresentado, registra um dos capítulos mais expressivos da história dos negros em Minas Gerais, no tempo da Regência. Ainda que a Revolta de Carrancas ficasse restrita às propriedades da família Junqueira, não deixaria de ser uma história de grande importância e mereceria ser resgatada dos papéis velhos que, muitas vezes, ficam escondidos em nossos arquivos à espera de historiadores curiosos para trazer das sombras do passado, personagens e histórias esquecidas. Mas essa história é bem mais que isso. Trata-se da maior rebelião escrava da província de Minas Gerais e que, no contexto das rebeliões regenciais, causou grande temor no seio da elite do sudeste escravista do Império do Brasil. Dentre inúmeros aspectos abordados nesta breve apresentação, o que mais chama a atenção na Revolta de Carrancas foi a organização e sucesso do levante enquanto não houve repressão, além do número de escravos condenados à pena de morte, superando os da Revolta do Malês, e a composição étnica variada dos participantes. A revolta contou com a participação de cativos de origens diversas: crioulos, minas, angolas, benguelas, congos, cassanges e moçambiques. Dos 31 escravos indiciados no processo, nove (29%) eram crioulos e 17 (54,8%) oriundos da África Central e dois minas. Constata-se a presença significativa de escravos falantes de bantu, considerados pela historiografia como mais acomodados e menos afeitos a revoltas, diferente dos "minas" e "nagôs". A diversidade étnica e cultural dos escravos da freguesia de Carrancas não impediu que eles se associassem, pelo contrário, revela a superação de tais diferenças para que o projeto de liberdade fosse alcançado, visto que escravos de diversas origens étnicas participaram dolevante

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Family stories:José de Rezende Costa , Pai e José de Rezende Costa, Filho - Inconfidencia Mineira.
Posted by: Enio Carvalho Dias on May 18 2011 22:42

Estas duas folhas da nossa árvore participaram da Inconfidencia Mineira , juntamente com o Tiradentes. Foram condenados ao degredo na Africa, veja artigo abaixo, publicado recentemente:

História

Cientistas identificam ossos de três inconfidentes mineiros

José de Rezende Costa, Domingos Vidal Barbosa e João Dias Mota atuaram ao lado de Tiradentes no século XVIII. Restos serão depositados em Ouro Preto

A uma semana do feriado que homenageia Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram) anunciaram a identificação das ossadas de três outros mineiros que atuaram no mesmo movimento. Eles morreram há cerca de 200 anos e foram encontrados nos anos 30, na África. Feito o reconhecimento, os restos mortais serão depositados no Panteão do Museu da Inconfidência Mineira, em Ouro Preto, no Dia de Tiradentes, 21 de abril, em cerimônia que contará com a presença da presidente Dilma Rousseff.

Unicamp

Crânio do inconfidente José Resende da Costa, morto aos 70 anos, no século XVIII

Crânio do inconfidente José Rezende da Costa, morto aos 70 anos, no século XVIII

Os corpos de José de Rezende Costa, Domingos Vidal Barbosa e João Dias Mota estavam enterrados desde o século XVIII em Cacheu, na Guiné-Bissau. Em 1932, o governo do Brasil resolveu reunir os corpos de todos os inconfidentes espalhados pelo continente africano. Graças a lápides nomeadas e registros concretos, 16 deles foram facilmente identificados e sepultados no panteão do museu mineiro.

Como os ossos dos outros três inconfidentes estavam muito fragmentados, não foi possível identificá-los à época. Somente nos anos 80 o diretor do museu mineiro, Rui Mourão, soube da história e, em 1993, conseguiu transferir as ossadas, que estavam no arquivo do Itamaraty, para a Unicamp. O professor Eduardo Daruge, doutor em odontologia legal, foi incumbido de analisar os restos mortais dos três homens.

Sem auxílio financeiro, a equipe de Daruge acabou levando sete anos para chegar à identidade dos inconfidentes e à idade com que morreram: José de Resende Costa tinha por volta de 70 anos, Domingos Vidal Barbosa, 32, e João Dias Mota, 50 anos. A conclusão foi tirada após pesquisas sobre a vida deles e análise da densidade dos ossos. De acordo com o professor, parte dos custos com a pesquisa foi tirada de seu próprio bolso.

Unicamp

Reconstituição do rosto de José Resende da Costa (direita) mostra semelhanças com seu trineto, que viveu em Minas Gerais há poucos anos

Reconstituição do rosto de José Rezende da Costa (direita) mostra semelhanças com seu trineto, que viveu em Minas Gerais há poucos anos

Os inconfidentes - José de Rezende Costa era capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de S. João. Foi preso em 1789 e degredado para a África, aonde faleceu em 1798 junto com o irmão Cap. Antonio Nunes de Rezende Costa, que também faleceu na Africa em 1802, e o filho que conseguiu voltar para o Brasil anos mais tarde. Seu crânio era o único em condições de ser recomposto e seu rosto foi reconstituído. Para isso, os pesquisadores enviaram imagens de uma tomografia computadorizada à Universidade de Londres. Na face redesenhada, Rezende da Costa aparenta ter 45 anos. Os traços assemelham-se ao de um trineto do inconfidente que vivia na cidade que leva o nome de Rezende da Costa, em Minas Gerais.

João Dias da Mota também foi capitão do Regimento da Cavalaria Auxiliar da Vila de S. João e era amigo de Tiradentes. Morreu em 1793, de uma epidemia que assolou a região de Cacheu, aonde havia chegado nove meses antes. Domingos Vidal de Barbosa fazia parte da elite mineira, estudou Medicina na França e pediu apoio à Inconfidência pessoalmente ao ex-presidente americano Thomas Jefferson, quando ainda era embaixador.

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Genealogy:As tres ilhoas e a Ilha dos Açores
Posted by: Enio Carvalho Dias on Apr 7 2011 20:50

Estudando a genealogia da familia Junqueira, várias menções são feitas sobre as 3 ilhoas, procedentes das ilhas dos Açores...

O arquipélago dos Açores, formado por ilhas vulcânicas da cadeia meso atlântica, situadas a 760 milhas a oeste de Lisboa, foi descoberto em 1427 por Diogo de Silves, da casa do infante Dom Henrique. Constitui-se de nove ilhas: Santa Maria, São Miguel, Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico, Corvo, Flores e Faial. Inicialmente desabitado, seu povoamento começou por volta de 1439 quando Gonçalo Velho Cabral para lá levou famílias alentejanas e algarvias e mais tarde, por influência da infanta D. Isabel, condessa de Flandres e duquesa de Borgonha, recebeu famílias flamengas. As ilhas estiveram, inicialmente, na dependência do Grão Mestre da Ordem de Cristo, sendo o sistema de colonização adotado o de capitânias hereditárias, com distribuição de sesmarias aos colonos. Esse sistema foi posteriormente transplantado para o Brasil por D. João III. O arquipélago passou ao domínio do Estado português com D. Manuel I.

Desde o início de 1720, a imigração açoriana se fez notar no Brasil meridional, principalmente nas Províncias de Minas Gerais e São Paulo. A densidade populacional e os constantes tremores de terra, erupções vulcânicas e as crises alimentares com a super-população das ilhas que formam o Arquipélago dos Açores, impulsionou os habitantes a solicitar à Coroa portuguesa autorização para a vinda para o Brasil.

Diante da possibilidade de povoar a nova colônia (onde a maioria dos habitantes era de aventureiros e homens solteiros que vieram em busca das minas de ouro e diamantes), com casais que iam fixar-se na terra, o Governo português autorizou a emigração.

As famílias foram chegando e estabeleceram-se principalmente na Província de São Paulo, que compreendia a Ilha de Santa Catarina (depois Capitania de Santa Catarina, hoje Estado de Santa Catarina), o Rio Grande de São Pedro (hoje, Estado do Rio Grande do Sul), e no sul da Província de Minas Gerais.

Vieram das ilhas do Pico, Santa Maria, Terceira, Faial, Flores, Graciosa, São Miguel, e muitos da Ilha da Madeira.

Dificilmente algum habitante dessa parte do Brasil deixa de ter antepassados com os nomes Goularte, Duarte, Garcia, Faria, Fagundes, Leal, Silveira, Rezende, Correia, Dias e assim por diante.

Aqui foram desbravadores, povoadores e fundadores de cidades.

A grande maioria dedicou-se à cultura de subsistência (milho, feijão, algodão, cana de açúcar) e criação de gado e tropa cavalar, numa época em que a fome era uma constante nas minas de ouro.

Deixaram suas marcas e seus costumes por onde passaram. Ainda hoje, acontecem festas populares e religiosas com o sabor dos Açores e o famoso costume de tomar água com açúcar para acalmar os nervos foi trazido pelos açorianos para o Brasil. As mulheres ainda tecem as rendas e bordam, como suas antepassadas. A hospitalidade açoriana é notada, principalmente em Minas Gerais, com a farta mesa de pães, biscoitos, queijos e doces para os que chegam.

Ainda em Minas Gerais, encontramos três irmãs que se tornaram figuras lendárias: Antonia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus, que aqui ficaram conhecidas como “AS TRÊS ILHOAS”. Eram filhas de Manuel Gonçalves Correa e de Maria Nunes, vieram da Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, na Ilha do Faial – Açores, e chegaram no ano de 1723. Antonia da Graça veio casada com Manuel Gonçalves da Fonseca e já com duas filhas: Maria Teresa de Jesus e Catarina de São José, Maria Teresa casou-se com Ignacio Franco e sua filha Helena Maria do Espirito Santo, casada com João Francisco Junqueira são os Patriarcas e marco zero da familia Junqueira no Brasil;

Júlia e Helena casaram-se aqui, com açorianos. A primeira com seu conterrâneo Diogo Garcia, e a segunda com João de Rezende Costa. Seus descendentes espalharam-se pelos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Paraná, enfim por quase todo o centro-oeste brasileiro.

O berço da família Rezende, no Brasil, é a fazenda do Engenho Velho de Cataguás, no actual município de Lagoâ Dourada (Minas).

Foi ali, naquele velho solar, que se estabeleceram na segunda decada do século XVIII João de Rezende Costa e sua Mulher D. Helena Maria de Jesus, encontraram-se em Prados, Minas Gerais, Brasil e casaram-se em 03 de Outubro de 1726. Trata-se de um dos importantes grupos mineiros, de abastados proprietários rurais, membros da chamada «aristocracia rural cafeeira», e atuantes na história política do país.

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Other:Fundacao da cidade de Pocos de Caldas, MG
Posted by: Enio Carvalho Dias on Nov 18 2010 13:22

A história de Poços de Caldas tem seu início na descoberta das suas fontes e nascentes de água a 45 graus centígrados na área que passou a ser conhecida como Campos de Caldas, no final do século XVIII, por Bandeirantes que vinham em busca de ouro e pedras preciosas.

Como não fossem ali encontrados ouro nem pedras preciosas, tal parte do território ficou desabitada até a época da decadência da mineração de ouro, atividade que foi sendo substituída pela agropastoril. No começo do século XIX, a fama das virtudes terapêuticas das caldas foi superando o medo provocado pelas crendices.

A fama do poder curativo das águas se espalhou rapidamente, fazendo com que um grande número de pessoas, na maioria doentes, enfrentassem diversas dificuldades para chegar às fontes devido a inexistência de um povoado e as dificuldades de acesso ao local.

Desde o início do século XIX, o local das águas e região adjacente estava sob administração de Caldas (nome que vem do latim "calidu" que significa "águas quentes").

A fama das águas continuava crescendo, mas nada ainda havia sido feito para receber os visitantes.

Para usufruir dos banhos sulfurosos, um dos freqüentadores das fontes foi o fazendeiro José Bernardes da Costa Junqueira que, encontrando excelentes pastagens, acabou por requerer do Governo Imperial uma sesmaria, a qual foi dividida entre os seus quatro filhos.

Em 1826, foi elaborada uma primeira planta do local, indicando nascentes de fontes, ranchos erguidos para enfermos, cemitério e área para construção de um hospital e de algumas casas.

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