Infância e juventude
Com suave aspecto de enigma é como se reveste para nós a origem da nossa querida Altamira. Filha de um imigrante português e de uma pernambucana, da tradicional família Vasconcelos de Moraes, conheceu bem pouco de seus pais, uma vez que sua mãe faleceu no parto da segunda filha e seu pai foi embora deixando-a com uma família brasileira. Foi, primeiramente, adotada e, só alguns anos depois, legitimada como filha pelo casal Arthur de Oliveira Melo e Josefa Quinderé Melo, que naquela época morava em Belém do Pará, onde ele, como militar, servia. De Belém saíram à percorrer várias cidades do interior do Pará e do Amazonas, inclusive fronteiras com outros países da América Latina. Foram tempos difíceis, devido à precariedade das condições de vida, mas que por certo muitas recordações ficaram marcadas em sua memória, principalmente dos riscos de vida a que se expôs por várias vezes, quando enfrentaram certos tipos de doenças, embarcações frágeis nas correntezas dos rios, insetos dos mais variados tipos e cobras venenosas. Conviveu muito de perto com índios nativos, com o caboclo amazonense e paraense, que de certo tirou muitas lições e muito aprendeu daquela gente simples no viver, mística no crer e discriminada no ser. A menina franzina de pernas compridas, sempre de saias curtas, cabelos lisos de franjinha, olhos graúdos e voz grave e forte, como até hoje, veio com seus pais para fortaleza, pela primeira vez, em 1924. Seu pai sendo militar, cabo do Exército, serviria no 23º Batalhão de Caçadores. Moraram por alguns meses na Rua do Seminário, hoje Monsenhor Tabosa, na Praia de Iracema, onde moravam parentes de sua mãe. Costuma lembrar que da calçada da casa onde morava, via os seminaristas saírem para o banho de mar, ou mesmo em passeios e visitas à família, nos finais de semana. Que na beira da praia era constante a presença das rendeiras as quais, com suas almofadas e bilros, driblavam o tempo e a linha, que espetada em cartões com espinhos de macaúba, resultava em belíssimas rendas, o principal artesanato da terra. Contava que havia um grupo de barbadianos, os quais se reuniam sob um pavilhão e ali confeccionavam utensílios domésticos de flandres. Eram pessoas negras de estatura alta, cabeças com poucos pelos e tinham a pele brilhosa. Viviam do fruto do trabalho artesanal cujas peças (bacias, panelas, baldes, etc.) tinham grande aceitação. Lembra também que nessa época, morava, ainda em Fortaleza, a família da irmã de seu pai, Izabel Melo Pessoa que, com seu marido Luiz Leitão de Souza Pessoa e os três primeiros filhos (Ilzo, Elder e Aldo) moravam bem próximos à sua casa. No quintal da casa havia um pé de azeitona (jamelão) embaixo do qual as crianças passavam horas brincando, inclusive comendo a frutinha roxa até arroxear toda a parte interna da boca. A permanência da família no Ceará, não durou mais que dois anos, quando o militar foi transferido para Belém do Pará, e logo designado para uma expedição no sul do País, precisamente em São Paulo. No período em que o cabo Arthur esteve servindo fora, sua mulher e a filha, ficaram em Belém, morando na Rua Nina Ribeiro, próximo ao mercado São Braz. Ao voltar da expedição, Cabo Arthur foi destacado para servir em fronteira. Serviu em contingentes nos territórios de Rio Branco e Roraima, no Iapoque, Tabatinga, etc. A família sofreu dificuldades climáticas, ausência de alimentação básica, recursos medicinais, educacionais, habitacionais e todos ais possíveis e imaginários. A ausência de infra-estrutura dos distantes locais tornava inviável a vida normal de seus habitantes. Viviam em destacamentos com poucas famílias, todas de militares, onde a comida, a água potável, os remédios e as notícias do resto do mundo demoravam dias e mais dias, até meses para chegar até eles. O acesso à informação absolutamente restrito e ineficaz, condicionava os que ali residiam a ignorar os acontecimentos fora das pequenas comunidades. Em uma das diversas viagens pelos rios amazônicos, em embarcações tipo gaiolas, a menina se ardia em febre e tremulava toda, em uma espreguiçadeira, quando um médico a examinou e alertou aos pais dela que, certamente, a criança não resistiria a mais três dias de viagem. O impaludismo a debilitara ao ponto de levá-la ao torpor mortal. Aos quatorze anos foi acometida de tétano, causado por um calo no calcanhar. Devido a escassez de recursos médico-hospitalares, por pouco não teve amputada parte de sua perna. Graças à determinação de seu pai em não autorizar o procedimento de amputação, ainda hoje tem suas pernas perfeitas. Foram alguns meses de tratamento, à base de queimação por um pó ferroso, bastante doloroso, mas eficaz, apesar do longo prazo. No final de tratamento, restou-lhe uma grande cicatriz mas em nada prejudicou a locomoção da perna. Seu pai além de militar era músico e gostava de tocar em festas noturnas. Sua mãe, ainda muito jovem e determinada, ia fazer serão nas festas onde o marido se apresentava e, à distância o vigiava. Um pouco antes das festas terminarem ela voltava com a filha, percorrendo veredas no mato, correndo o risco de serem atacadas por um algum bicho ou serem mordidas por cobra. Altamira nos contava que certa noite, quando a família voltava da casa de uns compadres, sua mãe foi mordida por uma cobra jararaca. Em meio à mata, ela foi socorrida pelos vizinhos, os quais lhe trouxeram um remédio feito de ervas para beber e um emplasto feito de um pintinho, recém-nascido, socado num pilão e misturado com pó de carvão, para absorver o veneno da cobra. Sua grande satisfação, hoje, já quase nonagenária, é relatar fatos de sua vida, especialmente, para os netos. A ênfase com que narra cada episódio unida à lucidez de suas lembranças, causa um efeito magnífico no desencadear de cada historia. Sua fisionomia irradia todo o deslumbramento e o ar de vitória por estar ainda vivendo e participando da história de sua familia que, embora pequena, lhe proporciona grandes momentos de alegria e lhe cobre de carinho e atenção. Uma das historias mais contadas e recontadas é a da cachorrinha Pirrete. Seu tio Jorge, irmão de sua mãe, achou uma cachorrinha perdida em umas ruas de Rio Branco, onde moravam, na época. Uma menina, filha de uns amigos de seus pais, esteve em sua casa e carregou a Pirrete consigo para sua casa. Foi um sofrimento para a menina Altamira, chegar em casa e não encontrar sua vira-lata que a cuidara com tanto carinho e dedicação. Passados alguns dias ela e os pais foram a uma fazenda visitar uns amigos e a primeira coisa que ela viu, nesse lugar, foi sua cachorrinha roubada. Não deu outra: Só saiu da casa dos amigos quando trouxe nos braços a Pirrete. Não deixa de transparecer algumas mágoas guardadas ao longo do tempo, provenientes do excesso de rigidez com que foi criada. Sr. Arthur tinha o coração mais brando e solidário, no entanto, sofria grande influência das ranzinzisses da mulher Zefinha. Mulher rancorosa, de mocotó fino, não voltava atrás em suas determinações austeras. Talvez por herança de seus antecedentes, não pensava antes de agir, assim sendo, batia antes de avaliar as circunstâncias em que foram gerados os fatos. Quando já garota adolescente de uns quinze anos, Altamira foi vítima de má interpretação de conversas entre sua mãe e uma vizinha. A mulher comentou que um rapaz, já bem mais velho que Altamira, se declarara apaixonado por ela. A menina que de nada sabia nem desconfiava, ganhou uma bela surra, inocentemente. Momentos depois da surra, a esposa de seu tio Jorge, que estava hospedado em sua casa, lhe perguntou: - Alta, sabe por que apanhastes? - Eu não, respondeu ela. - Porque a D. Fulana falou pra Zefinha que o Dário está apaixonado por ti. - Que tenho eu com isso? Nunca nem falei com ele... Todo esse episódio contribuiu para que ela criasse raiva ao rapaz e jamais quis aproximação com ele, pois sua imagem representava um castigo que ela não mereceu mas ganhou.
Vida Adulta
Estudou pouco, como era costume na sua época, quando a mulher devia ser prendada e preparada para administrar o lar e a família. Nos colégios que freqüentou, em sua maioria administrados por freiras missionárias vindas de outros paises para alfabetizar, catequizar e ainda ensinar trabalhos manuais, à população fronteiriça, aprendeu um pouco de tudo. Bordados á mão e em máquina de costura, flores de tecido e papel, enfeites para mesas de aniversário e casamento, onde os fazia com perfeição, além da satisfação em dedicar-se a tais trabalhos. Aos 22 anos se interessou em fazer o curso de enfermagem pela Cruz vermelha de Belém, que em época de guerra, preparava jovens para servirem se convocados. Sabe-se por outras fontes, que foi nessa época que a o casal Arthur e Josefa resolveu legitimar a filiação de Altamira, registrando-a com seus sobrenomes: Quinderé e Melo. Não sendo convocada para a guerra, passou a trabalhar na Farmácia Comercial, onde exercia um pouco da sua profissão além de manipulação de alguns medicamentos. No segundo semestre de 1943, chegou em Belém, Elder, um dos filhos de sua tia Izabel, cuja família morava em Porto Velho, território de Guaporé, hoje Rondônia. O jovem veio transferido para servir em Bragança, cidade próximo de Belém, e logo se enamorou da prima. No dia 27 de maio de 1944, aos 23 anos, Altamira casou-se com Elder Mello de Souza Pessoa, sobrinho de seu pai. Pela manhã aconteceu o casamento civil, no fórum da cidade e à tarde (17:00) o religioso, na matriz de Nossa senhora de Nazaré, em Belém. Logo após ao casamento, os noivos viajaram para Bragança, cidade do interior do Pará, onde Elder servia. Nos conta, Altamira, que por alguns meses ficaram morando em uma fazenda, visto que a cidade era bastante pequena e sub-desenvolvida. Passados três meses seu marido conseguiu transferência para Belém. Em 11 de abril de 1945, foi mãe pela primeira vez, nasceu Luiz de Souza Pessoa Neto, sendo então o primeiro neto, herdou o nome do avô paterno. No dia 4 de fevereiro de 1946, acompanhada de seu filho Luiz, pegou “um Ita no norte” – como diz a música – e veio para o Rio de Janeiro, encontrar-se com seu marido que, como militar, havia sido transferido, para servir no Ministério da Guerra, na Capital Federal. Moravam no bairro de Piedade, na Rua Xavier dos Passos, n. 237, casa 22, zona norte da cidade, em moradia modesta e bem distante do centro da cidade. Foram cinco anos de muito sacrifício, muitas lições e muito crescimento também. Uma experiência bastante válida para testemunhar a persistência e a determinação, frutos de um compromisso assumido diante do altar de Deus. Em 21 de novembro de 1947, nasce a única filha do casal Elder e Altamira, a quem deram o nome de Maria Piedade. Talvez em homenagem ao bairro, ou quem sabe, alguma gratidão à Nossa Senhora da Piedade, por os ter acolhido nessa cidade que, além de grande era também o centro das decisões do País. Piedade depois passou a ser chamada de Pia, pelos íntimos. Temperamento forte, determinada desde a tenra idade, não se intimidava com a postura austera do pai. Se super-posicionava ao irmão mais velho, que era calado, lento, tímido. No dia 13 de janeiro de 1951, nasceu o terceiro filho, Marco Antonio que já chegou contestando e mostrando que não estava gostando do seu novo mundo. Sua primeira atitude, além de chorar, foi um vasto esguincho de mijo, retribuíndo a acolhida do médico parteiro. Marco Antonio desde muito pequeno demonstrava suas idéias esquerdas-socialistas, quando tudo questionava e exigia respostas para todos os seus por quês?. No dia 04 de outubro de 1952, agora já com três filhos e estado de gravidez avançado, Altamira embarca em outro Ita, o Itaité. Dessa vez para um percurso inverso: do sul para o norte. O destino era Fortaleza – Ceará, o objetivo era dar a luz ao seu quarto filho, junto de seus pais que aqui residiam. Fortaleza nessa época era ainda uma província. As Condições de cidade pequena, interiorana, aparentava-lhe aspecto de subdesenvolvida, onde quase tudo ainda passava pelo lombo de um burro ou cavalo. Meio de transporte precário tornava as distâncias ainda maiores. A telecomunicação e o conforto da geladeira era privilégio de poucos, muito poucos. Tudo isso contribuiu para que em 18 de novembro de 1952, nascesse Cesar Augusto, em um dos quartos da casa de seus avós, Arhur e Zefinha, pelas mãos de uma parteira descalça, despenteada e ligeiramente suja, de nome Beliza, cujo aspecto simplório por demais, chocou a tranqüilidade da mãe do bebê, o qual, apesar da simplicidade do nascer, recebeu nome de imperador Romano, e tornou-se o caçula, vindo a encerrar a lista de filhos de Elder e Altamira. Foi um dia bem movimentado. Logo cedo, a gestante anunciou seu desconforto devido às contrações pré-parto. O Hospital Militar ficava muito distante e o meio de transporte bastante precário. Até os carros de aluguel eram poucos e difíceis de localização. Daí seu pai saiu à procura de uma parteira para aparar a criança, como diziam antigamente. Em sua busca, encontrou D. Beliza lavando roupa na beira do açude que existia na fazenda de propriedade da família Pergentino Maia. Da forma que estava, descalça, pano amarrado na cabeça e mascando um pedaço de fumo, atendeu ao pedido de um pai aflito, preocupado em resolver o problema da filha que, já bastante sofrida e cansada, só conseguiu parir após a chegada da lavadeira-parteira. De início chocou-se com o aspecto físico da mulher, preocupando-se com a sobrevivência sua e de seu filho, mas sem alternativa, resolveu entregar-se aos cuidados daquela que lhe ajudara a por mais um filho no mundo. Enquanto dentro da casa o cenário era de preocupação, dores e lágrimas, fora da casa estavam os dois filhos mais velhos, em pleno sol, de cara pra cima, esperando a cegonha chegar com o irmãozinho no bico. Grande foi o susto quando ouviram os primeiros gritos do bebê, pois não entendiam por onde a ave passou sem que eles vissem. A família permaneceu em Fortaleza durante um ano. As crianças se surpreendiam a cada instante com os hábitos interioranos usados no cotidiano dos seus avós e do povo cearense. Estranhavam que a carne fosse trazida até a porta de casa, no lombo do cavalo, cujo vendedor tinha o título de carniceiro, o outro que vendia as vísceras do boi, no período da tarde, chama-se bucheiro. A água armazenada em potes e não escorrer por uma torneira também era motivo de espanto. Mas o maior escândalo das crianças foi quando lhes passou um porco, animal desconhecido para elas, ao qual julgaram ser um rato em tamanho gigante. O avô levou algum tempo para lhes explicar que não se tratava de um roedor gigante e sim um suíno. Em outubro de 1953, Altamira, seus quatro filhos e sua mãe, Zefinha, embarcaram em outro navio, o Itambé, com destino a Recife – Pernambuco, pois o marido já estava servindo na 7ª Região Militar. Tenho ainda na memória, a nossa chegada em Recife. A casa em um bairro distante do centro, estava toda montada. Mobília nova, fogão, louça, talheres, roupa de cama, mesa e banho, tudo organizado pelo chefe da família. A nossa primeira refeição foi café com leite e bolacha Americana da Pilar, um tipo de biscoito crocante e salgado, com manteiga Lírio. As canecas de louça em que tomamos o café nos estimulavam a bebê-lo, pois parecia que o café com leite ficava mais gostoso. Todas as noites apagava a luz e o candeeiro à querosene entrava em serviço. Pela manhã era necessário que se lavasse as mangas de vidro que protegiam o fogo do vento. A casa tinha três quartos, mas no início, dormíamos os três mais velhos em um só quarto, e o caçula dormia no berço no quarto de nossos pais. Nossas cama eram “Patente” e os colchões de capim. Não lembro quando, mas algum tempo depois, meu irmão mais velho passou para o outro quarto e eu fiquei com os dois menores. Segundo ela conta, os cinco anos que moraram em Recife, foi o melhor tempo de sua vida. Os filhos crescendo, criados com muita rigidez, mas com muita dedicação, apoio, carinho. A família morava em um bairro modesto, distante do centro da cidade, cujo nome é Fundão de Dentro, ou Campina do Barreto, na Rua da Esperança nº 264. Um bairro simples, de classe pobre, mas muito pacato, onde se podia viver com tranqüilidade. Altamira como boa cristã, sempre teve muita fé e esperança em Deus. Sua confiança nEle lhe fortalecia e a fazia superar as dificuldades que surgissem. Se empenhava em dar uma formação cristã aos filhos, os quais desde pequenos, aprenderam as primeiras orações e noções da Doutrina cristã. Próximo à sua casa havia uma comunidade das irmãs de caridade da ordem de São Vicente de Paulo, onde seus dois primeiros filhos se preparam para a Primeira Eucaristia. A família de parcos recursos, vivia em uma casa alugada, com três quartos, sala, banheiro, cozinha, terraço e um quintal maravilhoso onde as crianças descarregavam suas energias nas brincadeiras mais diversificadas e divertidas possíveis. Ali plantavam hortaliças, frutas, legumes e criavam galinhas e patos, tudo para o consumo da família. Por insistência dos filhos, tiveram dois cachorros: um todo branco, cujo nome era Baião, e um amarelo dourado ao qual deram o nome de Leão. Como as mulheres de sua época, era unicamente doméstica. Apesar de ter sempre uma pessoa que lhe auxiliasse nos serviços da casa, era ela quem comandava tudo, principalmente a cozinha, pois com sua mania de perfeição, tudo deveria estar pronto a seu tempo e hora. Seu tempero era maravilhoso, onde um simples feijão com carne assada de panela tornava-se um banquete. Os almoços dos domingos eram festivos. Geralmente macarrão, galinha à cabidela e purê de batata, com direito a guaraná Champagne. O casal bebia uma cerveja Malzebier. Altamira socorria seus vizinhos com primeiros socorros. Jamais se negava aplicar injeção ou executar pequenos curativos aos que lhe procuravam. Por vezes precisava deslocar-se até a casa do doente, fato que intrigava seu marido, ao ponto de exortá-la quanto a algum incidente que por ventura provocasse mal estar em alguém. Enciumado e, talvez, por se ver desobedecido, admoestava-a com maldosa profecias do tipo: “No dia que alguém morrer por causa de injeção aplicada por ti, quero ver como vais te haver”, ou ainda: “Qualquer dia desses mata uma pessoa na aplicação de injeção”. Mas ela não se intimidava e continuava praticando seu aprendizado de enfermagem, ajudando as pessoas simples que moravam próximas de sua casa. Nem sempre recebia pagamento, por serem ainda mais pobres que sua família. Seu trabalho era apenas pelo censo de compromisso e dever para com seus semelhantes. Os filhos têm muitas coisas boas para lembrar. Em suas rodas de conversa, ainda hoje, lembram dos tantos episódios vividos naquela época, onde a vida era mais fácil de se viver, pois a simplicidade de ser suplantava o ter e, harmoniosamente, viveram o período de infância com muita alegria. Dentre os fatos vivenciados lembram da chegada da primeira geladeira da família, uma “Frigidaire”. Ano de 1955. Logo alguém teve a idéia de vender picolé. Faziam o suco de frutas naturais e congelavam em cubinhos. Colocaram uma placa na frente da casa: “Vende-se picolé”. Não deu outra. A vizinhança aderiu ao picolé, para refrescar o calor. A hora de maior procura era próximo ao almoço, mas a demanda contribuía para a venda de toda a produção diária. Existia uma caixinha de papelão onde guardavam o apurado do dia. No dia seguinte iam comprar frutas no mercado de Água Fria para fazer mais picolé. Assim, no final de semana, as crianças tinham um dinheirinho para ir aos parques e ao cinema. Outro fato que marcou muito a infância foi a sanfona da única filha. O pai inventou que ela deveria aprender a tocar acordeon. Primeiro comprou uma pequena, de 24 baixos. Logo que começou a aprender as primeiras músicas, ganhou uma maior de 84 baixos. As aulas eram à tarde, na Rua da Imperatriz, no centro da cidade. Quando já tocava algumas músicas, era convidada para tocar nos aniversários de criança ou no colégio das freiras. Quando foi acometida de bócio, teve que deixar de tocar, pois o peso do acordeon poderia estar prejudicando-a. Achou ótimo. Com o dinheiro do acordeon, seu pai comprou uma bicicleta “Gulliver”. Foi uma troca maravilhosa e inquestionável. Só que a bicicleta era para os quatro. Então nos sábados e domingos, à tarde, os irmãos faziam o rodízio. Cada um brincava um pouco. De quando em vez saia uma briguinha, mas nada tão sério que uns gritos do sargento não resolvesse. No dia 24 de agosto de 1954, dia em que Getulio Vargas morreu, o terceiro filho de Altamira, Marco Antonio, na época com três anos, achou de brincar de ir às compras em Recife (como os recifenses se referem ao centro da cidade), com os filhos dos vizinhos, Ruth e Paulinho. Resultado: saíram caminhando de mãos dadas e, bem mais tarde, foram encontrados já bem distantes de casa. Nesse dia foi um reboliço danado. A vizinhança toda já estava alvoroçada na procura das crianças, quando alguém surge na esquina com elas bem tranqüilas, mas decepcionadas por não haverem concluído o objetivo do passeio. Um outro episódio interessante, foi a chegada de uma família de retirantes. A menina com apenas nove anos adotou os filhos do casal e logo se propôs a dar aula para as crianças, dar banho, comida e, nas horas de folga, passear com eles na garupa da bicicleta. Numa das vezes desses passeios, o garoto menor, de dois anos, fechou as pernas e cortou o pé no aro da bicicleta. Lá vem problema para D. Altamira que logo tratou de fazer o curativo no pé da criança e, como de costume, esconder do marido a traquinagem da filha. Altamira, apesar da pouca cultura, foi sempre muito inteligente. Sabia driblar as dificuldades, os fatos inesperados, as intransigências do marido, sempre buscando a harmonia e o sossego dos seus. A vida simples que viviam não objetou que tivessem uma excelente formação. O testemunho de honestidade e lisura de seus pais, os fez pessoas preparadas para enfrentar o mundo desigual e competitivo, elegendo como valores imprescindíveis, aqueles que não ferissem a sua dignidade nem tampouco prejudicassem a outrem. Foi com toda essa sabedoria que Altamira conseguiu sustentar seu casamento por 61 anos, até a morte do marido. Soube provar para seus filhos que pobreza não é desonra e que, as influências externas não podem nem devem sobrepor os exemplos e ensinamentos vividos no seio de uma família. Assim se passaram cinco anos. Devido à outra transferência, estavam todos de volta para Fortaleza. Dia 8 de dezembro de 1959. Desde as quatro horas todos se arrumavam para a viagem de volta. Os vizinhos bastante chorosos, se preocuparam em trazer café, tapioca, cuscús, biscoitos, para o café de despedida. Envolvidos em grande saudade, às oito horas, embarcaram em um avião do Loyde Brasileiro, chegando em Fortaleza por volta das nove horas e trinta minutos. Aqui em Fortaleza, o marido já primeiro sargento, o sistema de vida da família já foi um pouco diferente e menos sacrificada. Os dois mais velhos foram estudar em escolas públicas. Um por castigo, pois havia sido reprovado na segunda série do ginásio e a outra porque o destino quis que nunca sentasse em bancos de escolas privadas, durante sua formação fundamental e secundária. Chegou a adolescência e logo a juventude dos filhos, as preocupações também. Se saíam à noite e demoravam a chegar Altamira não dormia; Quando chegavam, sempre tinha uma comidinha preparada, no forno do fogão ou na geladeira, para que não dormissem com fome; se adoeciam era ela quem cuidava, principalmente nos pequenos acidentes ela demonstrava suas técnicas de enfermagem. Os filhos casaram, chegaram os netos, sempre muito apegados a ela. A casa da “minha vó” ou da “voínha” sempre foi muito desejada, pois até hoje, ainda é o reino dos netos. A dedicação e o carinho pelos netos gerava insatisfação ao avô, o que por várias vezes demonstrava inquietação com a presença dos netos, principalmente, os mais novos, pois os quatro primeiros foram também paparicados por ele. Mas nem tudo foi felicidade. Em janeiro de 1985, após dezesseis anos de casado, seu filho mais velho, se separa da mulher, causando a primeira dor e a primeira ruptura na família, que até então, permanecia congregada. Com a separação do casal, suas duas netas foram morar em Recife, onde a mãe tinha familiares. Duplo sofrimento: a ausência das netas entristeceu não só os avós mas toda a família. No dia 26 de maio de 1987, ele faleceu. Este segundo e grande golpe, até hoje não totalmente esclarecido, balançou a estrutura da família e a saúde do casal Elder e Altamira, os quais perderam o encantamento, a alegria já não é a mesma. Eram ao todo dez netos: Ana Paula e Andrea, filhas de Luiz e Edileuza; Lyciane, Luiz Arthur e José Pires, de Piedade e Aecio; Samuel e Lucas, do Marco e Mirtis; e René, Bruno e Renata do Cesar e Liege, cada qual mais apaixonado e corujado pela vó. Quem não lembra da casa da minha vó, da voinha, da vó Alta? A casa da Amadeu Furtado, cujo quintal os acolhia nas danações de criança. O banho de mangueira e aguagem das plantas. Colher amoras maduras e come-las até ficar com a língua roxa. Deitar e rolar naquele piso preto e branco da sala, configurando um enorme xadrez. Brincar no balanço, andar de motoca, colher as pimentas e depois chorar com ardor na boca. Foram tempos inesquecíveis. Já no apartamento da Ildefonso Albano, Edifício Silvia Helena, onde o espaço embora restrito, havia um terreno no pilotis e lá era o quintal dos netos. Só subiam para ir ao banheiro ou para almoçar. As vezes o lanche vinha onde estavam, assim não interrompiam a brincadeira. A companhia da vó era sempre bem vinda nas férias na Cofeco, nos cinemas, nos piqueniques da Praia do Buraquinho (Praia de Iracema), no passeio de trem, nos shows de cantores mirins, nos eventos do colégio, enfim, em todas as atividades dos netos, na infância e na adolescência. As netas começaram a casar. Primeiramente, em janeiro de 1994, Ana Paula, depois, em dezembro de 1995, a Lyciane e por último, em setembro de 1996, a Andréa. Inesperadamente, em agosto de 1997 outro golpe: Sua neta Lyciane, é chamada por Deus à transcender sua condição humana. A experiência do amor infinito de Deus foi muito forte na família. A saudade é muito grande, mas a certeza de que hoje temos intercessores junto de Deus é bem maior. E ela, mais que ninguém, tem demonstrado ao longo de tudo isso, que através de sua fé, se tornou uma fortaleza, exemplo para todos os demais. No dia 11 de fevereiro de 1999 nasceu Daniel, filho da Ana Paula, portanto o primeiro bisneto, em 10 de março de 2001 nasceu Luizinho, filho da Andréa. Sua historia de mulher-esposa foi traçada por inúmeros episódios mesclados de alegrias e tristezas, satisfações e frustrações, sorrisos e lágrimas. Como toda mulher, entrou no casamento embalada pelo romantismo, envolvida em sonhos, especialmente, o de tornar-se dona de sua vida sem mais submissão aos pais. O marido além de nortista era militar, formado em uma sociedade machista onde o homem podia tudo, a mulher nada podia. Foram sessenta anos de casada, sempre cumpridora de seus papeis a si confiados como mulher, mãe, enfermeira, dona de casa, etc. Mulher à moda antiga e a Amélia da canção popular. Poucas oportunidades lhe foram oferecidas para demonstrar seu potencial intrínseco, oculto, sutil, mas de grande valor que a tornava uma força viva e pilar de sustentação no equilíbrio de sua família. Apesar da debilidade resultante da idade e de algumas patologias senis, ainda relembra muita coisa de sua vida, inclusive uma grande paixão proibida, mas nunca esquecida. Por vezes relata a história de amor que foi interrompida antes de ser vivida, uma vez que não passou de um flerte e sonhos, seu romance com o jovem Roberto. Tratava-se de um rapaz, filho único que vivia com sua mãe, doente mental (esquizofrênica). Trabalhava no Banco do Brasil e ensinava em um colégio de ensino médio. Se entreolhavam no bonde, a condução da época, quando iam ou regressavam do trabalho. Falaram-se poucas vezes e uma delas resultou numa bela carraspana de seu pai que estava no mesmo transporte e não gostou de ver a filha ser cortejada no trajeto de volta à casa. Esteve em casa dele algumas vezes, para aplicar injeção em sua mãe. Vez por outra, ainda relembra o amor efêmero na prática, mas eterno na memória e no coração. No campo da saúde, Altamira sofreu alguns males, alguns até graves. Quando jovem teve malária e tétano. Quando adulta, já morando em Recife, precisou passar por um rigoroso tratamento ginecológico devido a uma inflamação uterina, de grande dimensão. Em tratamento dentário, após extração de alguns dentes, teve uma grande hemorragia, a qual demorou a estancar. Foi um momento de grande aflição para o marido e os filhos, que se utilizaram de recursos domésticos para sustar o fluxo de sangue que lhe escorria boca abaixo. Já em Fortaleza, com os filhos crescidos, teve um período de menopausa bastante sofrido. Ela sempre relata que a sorte foi que o futuro genro, por ser representante farmacêutico, lhe conseguia amostras grátis de um medicamento de ultima geração (gerontabol), aliviando seus males menopáusicos. Fraturou os braços por algumas vezes, devido a facilidade de sofrer quedas. Sofreu muitos e muitos tempos com problemas oftálmicos provocados pela alta sensibilidade do tecido ocular. Queixa-se de um forte vento frio, que recebeu no rosto, quando ainda morava no Rio de Janeiro, provocando assim uma lesão na pálpebra direita que tornou-se rígida, sem flexibilidade suficiente para o fechamento total do olho. Isso lhe gerou inúmeras irritações, lágrimas e inflamações do globo ocular. Já depois dos setenta anos submete-se a uma cirurgia de Perinio e levantamento de bexiga, e de catarata nos dois olhos. Passou alguns anos se submetendo ao tratamento de mácula degenerativa nos dois olhos, sendo que o esquerdo logo ficou comprometido e sem visão central. Após vários procedimentos cirúrgicos para que continuasse enxergando normalmente, com o outro olho, sofreu um grande sangramento e não mais aceitou submeter-se ao tratamento por considerá-lo traumático. Desde então perdeu parte de sua alegria por não poder ler, resolver palavras cruzadas ou bordar, coisas que tanto lhe distraiam. Portadora de repetidas infecções urinárias e devido à imunodepressão que ao longo de sua vida vem se agravando, tem sofrido com a necessidade de diversos medicamentos, sejam eles administrados por via oral ou injetáveis. Sempre teve dificuldade de ingerir comprimidos, mesmo os mais minúsculos. Hoje, no limiar de seus 90 anos, ainda bastante lúcida, vive cercada de muito carinho, de muita atenção; não só da família, mas dos amigos também. Possuidora de um grande carisma, consegue cativar as pessoas que dela se aproximam, haja vista as amizades conquistadas nas suas inúmeras viagens, o carinho com que lhe tratam suas vizinhas-amigas, os seus médicos e terapeutas. Altamira sempre bem humorada, adora cantar, especialmente as músicas antigas que lhe trazem recordações. Eterna apaixonada pela vida e por tudo que dela pôde extrair. Possuidora de grandes qualidades, mas alguns defeitos também. Seu caráter passional a fez guardar mágoas inesquecíveis que nem mesmo o passar do tempo e corrosão de parte de suas memórias fizeram apagar tais marcas vez por outras lembradas. Dizia sempre que se fora homem seria um perfeito boêmio. Gostou muito de estar na noite, mesmo que só a ouvir músicas, serestas, cantatas. Viajou pelos quatro cantos do Brasil e várias partes do mundo. Apreciava um bom vinho, principalmente, se acompanhado de bacalhau, herança de sua origem lusitana. Se tivesse aprendido a dirigir carro gostaria de ter um jipe e teria pilotado motos, por necessidade de liberdade. Falar de Altamira é buscar histórias de uma vida. Vida essa que, vivida fora de sua época, encantou a muitos e não só os seus, com a sua naturalidade de ver os acontecimentos, de acompanhar a evolução dos tempos, de participar de estados constrangedores, sem susto ou medo, sem escandalizar-se ou reprimir quem quer que fosse, acreditando que cada um escolhe a sua vida e constrói a sua história, mesmo que à custa de cabeçadas. |