Da Idade do Ferro (800 a.C.) surgem, nos terrenos férteis do lugar de Mutela, vestígios do que poderá ter sido um casal agrícola, contemporâneo do povoado do Almaraz em Cacilhas, havendo semelhança entre a cerâmica de características orientais recolhida naqueles dois sítios, por exemplo, no caso de ânforas de tipo fenício.
A Mutela era uma povoação anterior à Cova da Piedade, onde foi constituído no séc. XVI o morgadio dos Costas (mais tarde Mesquitelas) propriedade agrícola com Moinho de Maré. O Palácio do Armeiro-Mor, sede da propriedade, encontra-se muito alterado.
A família Costa, conhecida pelos seus membros que ocuparam o cargo de Armeiro-mor do reino, pelo qual são conhecidos mesmo depois de, no final do século XVIII, receberem o título de Viscondes de Mesquitela e Condes de Vila Franca do Campo. Ao morgado pertenciam a casa apalaçada que ainda resiste, ao fundo da Rua Manuel Fevereiro e o moinho de maré da Mutela, entretanto desaparecido.
Nesta zona funcionou a redacção do jornal " O Corticeiro ", o primeiro jornal escrito e dirigido por operários corticeiros editado em Portugal.
Um aglomerado populacional predominantemente habitado por classes de parcos recursos, mas com alguns edifícios que se distinguem pela apurada decoração das fachadas.
A primeira estrutura produtiva mecanizada de que há notícia nesta zona é o moinho de maré da Mutela. Em 1865, era propriedade de Manuel José Gomes, industrial moageiro responsável pela construção no Caramujo de uma fábrica de moagem com cais privativo e accionada por uma máquina a vapor, a qual permitiu aumentar consideravelmente a produção de farinha, acompanhando assim a tendência do arranque da Revolução Industrial em Portugal. Após o incêndio que destruiu a fábrica em 1897, por iniciativa de António José Gomes, filho e herdeiro do antigo proprietário, foi construído um novo edifício utilizando o cimento armado e o ferro, técnica de construção pioneira em Portugal, e equipada com máquinas a vapor e sistemas de moagem, que correspondiam à mais avançada tecnologia da época.
A partir de 1880, a chegada do comboio ao Barreiro facilita o transporte de matérias-primas promovendo o processo de industrialização da zona ribeirinha, onde se instalaram fábricas de transformação de cortiça, estaleiros de construção naval, um forno de cal e tanoarias.
È para esta zona que vem morar António José Banha, meu bisavô, que tendo nascido em São Miguel de Machede no concelho de Évora vem desenvolver a sua actividade profissional no sector corticeiro. E é aqui que casa com uma senhora da terra e onde nascem os seus filhos, entre os quais Henrique José Banha meu avô paterno.
No Caramujo instalou-se por volta de 1861 o primeiro fabrico de cortiça do concelho de Almada, a Companhia de Londres e Lisboa. Seguiram-se a Bucknall, na Margueira Velha, a Vilarinho e Sobrinho, no Caramujo e a Rankin, no Alfeite.
Ao desenvolvimento industrial e comercial, correspondeu, o crescimento populacional, resultante dos fluxos migratórios de populações das Beiras, Alentejo e Algarve, que aqui se fixaram. De realçar o investimento inglês nesta zona, bem como o papel dos mestres da construção naval oriundos da região de Aveiro, dos corticeiros de Silves e dos trabalhadores rurais alentejanos, que procuram nas fábricas o trabalho “certo” que a jornada agrícola não garantia.
A população operária vai ocupando a antiga zona pantanosa e insalubre, entretanto seca e assoreada, mas sujeita a cheias frequentes até ao final do século XX. As casas da Romeira e Caramujo ainda mantêm nas portas as barreiras protectoras contra a água.
A 7 de Fevereiro de 1928, a Cova da Piedade adquire autonomia administrativa com a elevação à categoria de Freguesia, através do decreto-lei n.º 15004, sendo o seu executivo formado por Manuel Antão Júnior, António da Silva Pires e Crisógono Fonseca Coelho.